A mansão da vergonha – IREE

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A mansão da vergonha

Juliano Medeiros

Juliano Medeiros
Presidente nacional do PSOL



Há muito os limites do que seria aceitável foram ultrapassados no Brasil. O Presidente da República comete crimes às dezenas e segue impune com o beneplácito do mercado e das instituições de Estado.

O país alcança a trágica marca de 250 mil vidas perdidas pela pandemia do novo coronavírus e, invés de aprovar o retorno do Auxílio Emergencial que salvou milhões de famílias do fantasma da fome em 2020, a Câmara dos Deputados começa o ano legislativo tentando votar uma Emenda à Constituição que trata da imunidade parlamentar.

Ao mesmo tempo, aliados do governo Bolsonaro ameaçam pôr fim à obrigação constitucional que assegura um investimento mínimo em saúde e educação. Atônito, o povo espera que a vacinação – que segue a passos desesperadoramente lentos – salve o país.

Diante dessa situação dramática, o que faz o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro, denunciado pelo Ministério Público por peculato (desvio de dinheiro público), lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa? Compra uma casa de R$ 6 milhões de reais em área nobre de Brasília.

Já seria um escárnio que, negando um auxílio de R$ 600 para quem está à beira da pobreza extrema, o filho do presidente comprasse um imóvel equivalente a dez mil vezes esse valor. Mas o fato é ainda mais revoltante: Flávio Bolsonaro é acusado de lavagem de dinheiro justamente através da compra e venda de imóveis.

O “escândalo das rachadinhas” consistia na apropriação do salário de servidores lotados no gabinete de Flávio, então deputado estadual no Rio de Janeiro. O operador do esquema era o célebre Fabrício Queiroz, preso ano passado em Atibaia, São Paulo.

O dinheiro era lavado através da compra e venda de imóveis e de uma loja de chocolates. Isso poderia explicar a incongruência entre a renda de Flávio e o valor da mansão que acaba de comprar: na eleição de 2018, o senador declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) patrimônio de R$ 1,74 milhão.

Mas deixemos de lado o caráter absolutamente suspeito da transação. O absurdo está na inação das instituições diante desse ultraje. Então o filho do presidente é acusado pelo MP de lavagem de dinheiro através da compra e venda de mais de 20 imóveis e o que ele faz no meio das investigações? Compra um imóvel! O sujeito zomba do Judiciário.

E por que ele fez isso? Porque conta com a mesma leniência com que as instituições têm tratado seu pai, Jair Messias Bolsonaro. Diante de dezenas de crimes de responsabilidade o que fez o presidente da Câmara dos Deputados? Deixou mais de sessenta pedidos de impeachment dormitando.

Diante das queixas de crimes eleitorais cometidos pela chapa Bolsonaro/Mourão, o que faz o TSE? Analisa muito lentamente as denúncias que pedem a cassação da dupla.

Diante das constantes ameaças à democracia, oposição e imprensa, como se porta o Supremo Tribunal Federal diante de Bolsonaro? Faz de conta que “faz parte do jogo”.

Como Flávio não se sentiria protegido para seguir perpetrando seus crimes diante da camaradagem das instituições frente à infinidade de crimes cometidos pelo pai?

A mansão de Flávio Bolsonaro, portanto, é um tapa na cara da sociedade brasileira. Mostra que a família Bolsonaro, a mesma que nega uma ajuda emergencial de R$ 600 aos mais pobres, não se incomoda de ostentar a aquisição de uma casa de R$ 6 milhões.

Mostra também que não acredita que as instituições ainda podem funcionar. Confiam na impunidade. Fica a pergunta: até quando isso tudo vai durar?



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Juliano Medeiros

Historiador, mestre em História e doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi Diretor-Presidente da Fundação Lauro Campos (2016/2017) e desde 2018 é Presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). É autor e co-organizador dos livros "Um partido necessário: 10 anos do PSOL" (FLC, 2015) e "Cinco Mil Dias: o Brasil na era do lulismo (Boitempo, 2017).

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