1 de novembro de 2024
Aqui no Rio de Janeiro nosso amado governador – bolsonarista, como poderá se deduzir – resolveu mostrar urbi et orbi sua nova aquisição: uma frota de carros, todos da mesmíssima marca, todos quase iguais, destinados… À polícia secreta, ao serviço de inteligência. Pois falando em inteligência, nosso líder esqueceu de um pequeno detalhe: A atividade desenvolvida nos veículos é secreta. Ao mostrá-los, o bom Claudio claudicou na lógica, pois pôs em risco TODOS os cidadãos que se utilizam deste veículo.
Gostei de usar as palavras “pois” e “pôs” juntas. Vou tentar repetir a façanha.
O Conselho de Ética no Congresso – dominado por bolsonaristas, logicamente – faz de tudo para defenestrar Glauber Braga. No que fazem muito bem!
Esse senhor faz de tudo para perturbar a ordem natural das coisas. Se mete em tudo, denuncia tudo, parece um filhinho de mamãe!
-Manhêêê, o Tutu tá fazendo coisa errada!
-Tia, peguei o KataKata passando bilhetinho!
Ele decididamente não tem o nível necessário para ser deputado nesse país. Se aborreceu, pois um membro do MBL, que o persegue há tempos, xingou sua mãe internada, que veio a falecer. O ofensor é um inútil, não serve para nada, mas conseguiu irritar nosso deputado. O Conselho de Ética perdoa quase que literalmente tudo – menos um deputado de esquerda que reagiu ao inominável. Já o MBL… Ah, o MBL! Ele se une ao que há de pior no país. Depois finge que se afasta e gruda no novo pior. Todos já ouviram falar em extrema-direita e extrema-esquerda; o MBL criou o extremo-Centrão.
Mas tivemos um grande momento: Bolsonaro chorando, sugerindo que o PT anistie os coitadinhos dos golpistas (uma observação importante é a que o nobre presidente Valdemar, do PL, numa conversa com a grande Andréia Sadi, caiu na casca de banana que ela jogou – tenho absoluta certeza que de propósito. Perguntou-lhe sobre a anistia “aos golpistas”, e o inocente Valdemar respondeu também se referindo a eles como… golpistas. Esqueceu que devia dizer “patriotas”).
Paragrafemos, ficou muito embolado. Bolsonaro está sem dormir preocupado com os coitadinhos que jogou no fogo enquanto usufruía as delícias da Florida. Lula, novamente, foi perfeito: a cara de deboche ouvindo o abantesma enquanto tomava um sorvetinho, e a resposta dada a uma jornalista, mais ou menos assim:
-Eu sou a favor de anistia. Mas nem todos foram julgados ainda! Deixa eles pensarem um tempo, aprenderem a dar valor à democracia, e aí a gente pensa nisso.
No fundo eu tenho pena deles. Honestamente. São pobres de espírito, pessoas de baixa capacidade intelectual, que foram induzidas por gente canalha a acreditar que estavam fazendo algo positivo. Tenho certeza que não fazem ideia do porquê estarem presos. Quer dizer, alguns deles.
-Mas por que eu estou preso?
-O senhor quebrou as janelas do Palácio.
-E daí? Pode não?
-Não, senhor.
-Mas que coisa! A gente tava protestando, nessa hora pode tudo!
-Ahn, não.
-Vai dizer que também não podia fazer cocô no hall do palácio?
A coluna está acabando e não consegui usar o “pois pôs” de novo.
Mas termino com uma reflexão, pela surra que tomamos nas eleições. Marçal definiu a disputa quando chamou Boulos de “Boules”. Ali ele pôs o dedo na ferida, que nos deixa sempre a um passo do ridículo. Ser de esquerda hoje implica em ser obrigado a concordar com tudo que for dito por nossos pares. Numa solenidade no palácio, a oradora disse que precisava “escurecer” o assunto. Isso é das coisas mais imbecis que já ouvi. Claridade e escuridão NADA tem a ver com cor da pele ou racismo. LGBTQIA+ e não sei mais o quê idem: se você não sabe a sigla nova toda, te cancelam. Eu acho que é a direita que cria essas siglas, e ficam rindo da gente. Se é gênero, chama de G+. Pronto. Dá logotipo, camiseta, simpatia… Alguns dos países mais fechados do mundo têm em suas línguas o pronome neutro, e por aí vai. Tem gente com quem tenho medo de conversar, falar alguma coisa indevida e ser cancelado. Não tem anistia! Uma coisa fora de lugar e você é esquartejado, seu terrenos salgados e seus descendentes declarados malditos.
A esquerda precisa aprender a agregar, a ser leve, a conversar. Precisa dialogar com o povo. Precisa falar bobagem. Boulos perdeu para uma nulidade radical, mas quem foi chamado assim foi ele. Tarcisio é direita radical, tudo de ruim que se pode imaginar – mas Boulos é que é. As pessoas têm medo dele, a propaganda da direita é infinitamente superior, pois pôs medo na população em cima de uma pessoa que é superior a eles em todos os sentidos, moral, espiritual, político, humano… Precisamos do Felipe Neto na comunicação.
Consegui.
E indico veementemente o livro do Felipe Neto “Como Enfrentar O Ódio”. Muito boa história, muito bem escrito.
Nos veremos de novo brevemente, caso eu não seja cancelado por criticar a esquerda. Sobre isso telefonei para Jorge Amado, que passou por tudo: foi comunista cassado, se decepcionou com os comunistas, e por ter amizade com ACM, por ter vendido direitos para a Globo, foi chamado de direitista. Ele me tranquilizou, dizendo que a gente passa, mas a obra fica. Estava me animando, quando perguntei:
-Mas a MINHA obra ficará?
Ele fingiu que a ligação caiu.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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