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A integridade eleitoral já está em jogo

31 de março de 2026

Erika Hilton

Erika Hilton
Deputada Federal



Com a proximidade das eleições, começamos a assistir ao crescimento de uma estratégia organizada da extrema direita para deslegitimar a integridade do processo eleitoral brasileiro. Não se trata de episódios isolados ou de divergências pontuais, mas de um movimento contínuo e crescente que tem como objetivo enfraquecer a confiança nas instituições e colocar em dúvida as regras do jogo democrático.

Isso fica evidente quando políticos passam a questionar o próprio processo eleitoral sem qualquer prova. Recentemente, Flávio Bolsonaro voltou a atacar a lisura das eleições, levantando suspeitas infundadas de que as eleições de 2022 foram compradas por Joe Biden, o que me levou, inclusive, a tomar iniciativas para responsabilizá-lo por esse tipo de discurso. Não se trata de crítica legítima. Trata-se de estratégia.

Quando se espalha dúvida sobre as urnas, quando se questiona o resultado antes mesmo de ele existir, o objetivo é um só: criar desconfiança para abrir caminho à contestação do resultado quando ele não interessa. Foi assim em 2022, e continua sendo agora.

A mentira, nesse caso, não é acidente. É método.

Esse cenário se agrava com o avanço das tecnologias digitais. A inteligência artificial permite produzir e espalhar conteúdos falsos em escala nunca vista. Deepfakes, montagens, vídeos manipulados. Tudo isso torna cada vez mais difícil separar o que é real do que é fabricado. E é justamente nesse ambiente de confusão que a desinformação cresce e se organiza.

É por isso que o debate sobre a regulação das plataformas digitais deixou de ser opcional. Ele é urgente. E se torna ainda mais grave quando vemos a atuação direta de Elon Musk no Brasil. Musk ultrapassou a posição de observador e passou a atuar como agente político, desafiando decisões do Supremo Tribunal Federal, descumprindo ordens judiciais e reativando perfis ligados à desinformação.

Isso não é defesa da liberdade de expressão. É intervenção política.

Permitir que plataformas operem sem qualquer controle é abrir mão da capacidade do Estado de proteger eleições limpas. No Brasil, onde a desinformação já mostrou sua força, isso tem consequências reais. O controle sobre essas plataformas hoje é parte central da disputa política.
Nesse sentido, as recentes iniciativas do Tribunal Superior Eleitoral para enfrentar a desinformação e o uso abusivo das tecnologias digitais nas eleições são passos importantes. Mas não basta regulamentar no papel. Essas medidas precisam ser aplicadas com rigor e, sobretudo, com rapidez. A velocidade da mentira hoje é incompatível com respostas lentas do Estado.

Nesse contexto, chama atenção a aposta de aliados de Jair Bolsonaro em uma possível interferência externa nas eleições de 2026. Não se trata apenas de uma estratégia eleitoral arriscada. Trata-se de um projeto que coloca em risco a soberania democrática ao recorrer à influência de atores privados estrangeiros e a um ecossistema digital desregulado.

Declarações como as de Valdemar Costa Neto, ao mencionar apoio de Donald Trump, deixam isso ainda mais evidente. Não é apenas alinhamento político. É uma tentativa de importar uma lógica de ataque às instituições e de questionamento permanente das regras do jogo democrático.

No fim, o que está em disputa é algo simples e decisivo: a confiança das pessoas na democracia.

Defender a democracia, hoje, exige agir em várias frentes. Fortalecer as instituições eleitorais, responsabilizar quem ataca a democracia e, sobretudo, enfrentar o poder desregulado das plataformas digitais.

Porque a democracia não se perde de uma vez. Ela vai sendo corroída, aos poucos, quando a mentira vira regra e a verdade passa a ser disputada.

E é exatamente isso que não podemos permitir.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Erika Hilton

Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. ‌Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.

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