10 de abril de 2026
Assistir ao documentário “Por Dentro da Machosfera”, de Louis Theroux, deixa uma sensação difícil de ignorar. Não apenas pelo teor absurdo de muitos discursos, mas porque ele revela algo ainda mais perturbador: muitos dos homens que lucram com a misoginia não acreditam integralmente naquilo que dizem.
É preciso agradecer ao documentarista por escancarar isso com tanta clareza.
Porque, quando a câmera permanece ligada por tempo suficiente, a fantasia começa a desmoronar.
Eles interpretam um personagem. Exageram, provocam, humilham e transformam mulheres em alvo permanente porque entenderam que isso gera clique, engajamento e dinheiro.
Isso torna tudo ainda mais grave.
Porque significa que, em muitos casos, não estamos falando apenas de homens machistas. Estamos falando de homens que descobriram que odiar mulheres pode ser extremamente lucrativo.
Misoginia pode virar crime no Brasil
Caminhos para enfrentar a violência contra a mulher no Brasil
A misoginia se transformou em um modelo de negócios. Ela vende cursos, podcasts, grupos fechados, mentorias, suplementos, apostas e promessas de poder masculino. Há toda uma economia baseada em convencer homens de que seus fracassos emocionais, afetivos e profissionais têm uma única origem: as mulheres.
A fórmula é simples. Se ele foi rejeitado, a culpa é delas. Se está sozinho, a culpa é delas. Se sente que perdeu espaço no mundo, a culpa é delas.
Existe quase um paradoxo nisso tudo. Esses homens culpam mulheres por tudo, mas vivem obcecados por elas. Tudo gira em torno delas: a validação, o desejo, a frustração e a raiva.
Grande parte desses influenciadores vende uma imagem cuidadosamente construída. Carros de luxo, relógios caros, corpos musculosos, mulheres consideradas desejáveis e uma vida de suposto poder e controle.
Mas, em muitos casos, isso é apenas cenografia.
Muitos acumulam acusações, processos, denúncias de fraude, violência ou crimes financeiros. Outros sequer possuem a fortuna que dizem ter. O luxo é alugado, a autoridade é encenada e a masculinidade vendida é um roteiro calculado para convencer homens inseguros de que aquele é o modelo ideal.
Como todo vendedor de fantasia, eles precisam parecer convincentes o tempo inteiro. Precisam performar riqueza, domínio e sucesso porque, se a encenação cai, o negócio desmorona.
Por isso o discurso é quase sempre o mesmo: “não somos misóginos, adoramos mulheres”. Dizem que as respeitam, que as protegem e que lhes oferecem conforto e luxo. Mas esse suposto amor quase sempre vem condicionado à obediência, ao silêncio e ao controle.
Há ainda uma contradição evidente. Muitos pregam valores tradicionais, defendem recato, condenam mulheres independentes e criticam comportamentos que consideram “imorais”. Mas são os mesmos que aparecem cercados de mulheres de biquíni, transformadas em decoração de iates, carros e mansões.
No fundo, não defendem tradição alguma. Apenas gostam da ideia de mulheres submissas, bonitas e disponíveis, desde que continuem ocupando o lugar de troféu.
O documentário mostra isso de forma explícita quando um dos influenciadores afirma viver uma “monogamia unilateral”, em que ele pode circular livremente enquanto a parceira não pode sequer falar com outros homens. A ideia é vendida como força e liderança. Mas o que existe ali é apenas controle.
Não por acaso, muitos usam a própria ideia de “red pill”, inspirada em Matrix, para criar a fantasia de que descobriram uma verdade escondida sobre as mulheres. Como se fossem homens despertos, livres da manipulação. Mas o que oferecem não é lucidez. É paranoia.
Esse é um dos aspectos mais assustadores do mundo em que vivemos. Nem sempre basta educar bem ou ensinar respeito. Vivemos em um capitalismo capaz de transformar qualquer coisa em mercadoria. Inclusive o ressentimento.
A misoginia deixou de ser apenas preconceito. Tornou-se produto, espetáculo e estratégia de mercado.
Existe também um alerta importante para os próprios homens.
Não caiam nessa.
Esses influenciadores não são líderes nem exemplos de masculinidade. São vendedores de carros usados, charlatães de internet e falsos gurus que descobriram que existe muito dinheiro a ser ganho explorando a insegurança masculina e a humilhação feminina. Dependem de homens frustrados, ressentidos e inseguros para continuar existindo.
Porque sabemos que o homem verdadeiramente forte não é aquele que passa o dia odiando mulheres na internet.
É aquele que não precisa disso para se sentir homem.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
Leia também
A violência contra professores no Brasil
Continue lendo...
O que significa ser um Estado laico
Continue lendo...
A ONU e a crise do multilateralismo
Continue lendo...