A I.A., O Bunab e as ABIN que se encontram no infinito – IREE

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A I.A., O Bunab e as ABIN que se encontram no infinito

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Num desses podcasts sobre ciência, o apresentador tenta nos assustar com a Inteligência Artificial. Ele simula uma fábrica coordenada por uma IA, que recebe a seguinte ordem: produzir o maior número possível de, digamos, pneus. A máquina obedece, e vai em frente, sempre otimizando a produção. Chega um ponto em que a IA decide que os operários estão atrapalhando, e que seriam melhor aproveitados como matéria prima. Não pode haver limites, ela precisa atingir o máximo.

Não entendi o problema. Qual a diferença disso para QUALQUER empresa capitalista de hoje?

Tenho um amigo querido que é capitalista. Acho que, se pudesse, se vestiria como o boneco do Monopoly (Aqui, “Banco Imobiliário”). Alguns disfarçam, mas ele, há muito, saiu do armário – perdão, do cofre. Ama o capitalismo como Tarcísio Meira ama Gloria Menezes. Comentei com ele o que vi divulgado: os 3 maiores bancos do país lucraram 25 bilhões. Bi. Enquanto isso, a grana destinada pelo governo a salvar 33 milhões de famintos é de 900 milhões…

Ele, com a sagacidade dos amantes correspondidos, retruca:

-Sim, e daí? É para distribuir? Então vamos dizer para a Petrobrás distribuir gasolina, a JBS a distribuir carne!

E em sua paixão cega ele não se deu conta que botou o dedo na ferida: JBS produz carne, Petrobrás, derivados de petróleo; se fosse o caso, Tostines faz biscoitos (não bolachas…), Raid faz inseticidas, A Ford faz automóveis (no exterior; aqui, não mais), e bancos… Bem, bancos fazem pobres. E isso eles espalham por aí com liberalidade. 

Mas isso tudo é normal. Ninguém se espanta com gente passando fome pelas ruas, por exemplo. Está na normalidade. A gente passa, finge que não vê, e sai assoviando. E seria fácil esquecer, se no quarteirão seguinte não aparecessem mais 3 ou 4 famintos. A gente se endurece, para não enlouquecer. Mês passado falei de jornalistas de fofoca. Acho que exagerei, tem coisa pior: bilionários.

Ou  Bolsonaro…

Já que falei em Inteligência Artificial, vamos à Burrice Natural. Teve live:

-Estamos aqui nesta live para falar das maravilhas de Trump. Na fronteira do Texas com o Canadá…

Esse, nem terraplanista. 03 o corrigiu.  Ele seguiu:

-O TSE fez propaganda para jovens votarem pois eles são de esquerda. Foram 4 milhões e meio, uns 80% votaram na esquerda! 80% de 4,5 dá, deixa ver, 33 milhões de votos! 

Acho que nenhum filho o corrigiu ali, a conta era muito complexa. 

Foram horas de tortura, tolices em desfile, e centenas de milhares assistindo. Quem, meu Deus, criou esse sujeito? O que nele atrai tanta gente? 

Talvez a resposta esteja numa antiga crônica de Fernando Sabino, onde ele descreve um sucesso de vendas nos EUA: o Bunab – Tipo 7. 

Tratava-se de uma traquitana com uma aparência levemente tecnológica que se notabilizava por não servir para nada. Absolutamente nada. O problema é que o Bunab, por si, tinha alguma graça. Borsolino, nenhuma. O Bunab custava uns poucos dólares; Biroliro, milhões. Talvez bilhões. 

Então fica a questão: o que leva as pessoas a amarem nosso Bunab sem carisma? O que, nesse maléfico e inconveniente Tio do Pavê, atrai multidões? Enquanto escrevo estas bem-traçadas, a famiglia passeia al mare. Gente saudável, que acorda com as galinhas e faz uma aeróbica em direção à lancha. Cantam, em lembrança aos tempos de quartel:

– Um – Dois – Três – Quatro!

-Quatro – Três – Dois – Um!

-Qual – o – objetivo – afinal?

-Sair – antes – da – Polícia – Federal!

Maldade. Foram pescar, foi apenas coincidência ser na hora da visita dos Federais. Terem voltado sem peixes e sem o 02 é apenas casualidade. Mas bem que eles podiam ter alguma ajuda, coitados. Vivem em sobressalto! Uma ABIN paralela seria tão útil…



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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