A gravidade da seca na Amazônia – IREE

Análises e Editorial

A gravidade da seca na Amazônia

Por Juliana Pithon e Samantha Maia

A Amazônia enfrenta um período de seca severa que se aproxima dos piores níveis hídricos da sua história. A estiagem causa uma tragédia humana e ambiental na região amazônica, com desdobramentos para o clima de outras partes do país.

A situação é resultado de uma combinação de fatores, entre os quais se destacam os efeitos do fenômeno climático El Niño e um aquecimento excepcional do Oceano Atlântico.

Conforme boletim de estiagem divulgado na terça-feira, 3 de outubro, pelo Governo do Amazonas, 24 municípios estão em situação de emergência, 34 cidades em alerta, 2 em atenção e 2 em normalidade. Calcula-se que 500 mil habitantes sejam afetados. O baixo nível dos rios dificulta o transporte, o que deixa populações ilhadas e afeta o abastecimento e o escoamento de produtos.

A estiagem causou um deslizamento de terra que devastou a comunidade do Arumã (AM), matou uma criança de seis anos e uma adolescente de 16 anos, e deixou centenas de desabrigados. Animais também sofreram com as consequências da seca. O aumento da temperatura da água causou uma mortandade de animais no Lago Tefé, no Amazonas, incluindo mais de 100 botos. Cientistas acreditam que o aquecimento da água tenha provocado a proliferação de algum patógeno que adoeceu os animais.

De acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), com base em medições da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), 38 rios passam por estiagem na bacia amazônica.

Uma nota conjunta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, e do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad) prevê um final de ano mais seco na região Norte do Brasil.

Causas da seca

A presença do El Niño é apontada como uma causa importante para a seca na Amazônia. Ele eleva a temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial e provoca alterações nos padrões de ventos, umidade, temperatura e precipitação, principalmente nas áreas tropicais. No Brasil, o fenômenos diminui as chuvas e aumenta as temperaturas, afetando especialmente as regiões Norte e Nordeste.

Mas o que agrava a situação é a combinação do El Niño com um aquecimento excepcional do Atlântico Tropical Norte, localizado acima da linha do Equador, que também inibe a formação de nuvens e reduz o volume de chuvas na Amazônia.

Apesar de estar em queda neste ano, o desmatamento da Amazônia é outro fator de mudança do clima que desafia a região. De janeiro a agosto deste ano, o território desmatado na Amazônia equivale a quase duas vezes o tamanho do estado de São Paulo, sendo o sétimo maior desde o início do monitoramento em 2008. Além disso, queimadas, movimentação de sedimentos por meio do garimpo e de plantações de soja também influenciam uma cadeia de mudanças na Amazônia.

Políticas Públicas

Uma comitiva do governo federal, com o vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros, esteve nesta quarta em Manaus reunida com autoridade locais para avaliar a situação e foi recebida pelo governador do estado, Wilson Lima. É a segunda vez neste ano que o governo precisa deslocar ministros de Brasília para tratar de eventos climáticos adversos.

No dia anterior à visita, Alckmin se reuniu em Brasília com ministros, representantes dos bancos públicos e das Forças Armadas e anunciou as primeiras medidas de ajuda, dentre elas o investimento de R$ 138 milhões em obras de dragagem nos rios Solimões e Madeira, com previsão de conclusão de 30 a 45 dias. Também foi anunciado o adiantamento do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o pagamento do seguro-defeso para pescadores e o envio de 191 brigadistas para a região. 



Por Samantha Maia

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