19 de outubro de 2026
Mas o que significa tomar a Bastilha em 2026?
Em 1789, os franceses descobriram que até aquilo que parecia eterno podia cair. Derrubaram uma prisão, desafiaram uma monarquia e inauguraram uma ideia perigosa: nenhuma organização do poder é natural, inevitável ou permanente. Mais de dois séculos depois, os franceses voltaram às ruas. A monarquia desapareceu, mas a velha pergunta continua inconveniente. Quanto de desigualdade uma sociedade está disposta a suportar antes de questionar não apenas seus governantes, mas a própria ordem que os sustenta?
Neste sábado, 17 de outubro, cerca de 550 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior francês, participaram de manifestações por todo o país. O movimento começou semanas antes, com estudantes denunciando escolas deterioradas, salas superlotadas e falta de professores. Cresceu, ganhou trabalhadores, sindicatos e integrantes dos coletes amarelos e passou a reunir reivindicações sobre salários, custo de vida e serviços públicos. Houve confrontos, depredações e prisões. Mas houve, sobretudo, uma demonstração de insatisfação social.
Dias antes, estudantes haviam ocupado a Praça da Bastilha, em Paris. A imagem tinha uma força histórica. A mesma cidade que, em 1789, transformou uma fortaleza em símbolo da queda do absolutismo, voltava a ocupar suas ruas para contestar as condições materiais da própria existência.
É evidente que a França de 2026 não é a França de Luís XVI. Não há uma monarquia absolutista a derrubar, tampouco um programa revolucionário unificando os manifestantes. Mas a história não precisa se repetir para continuar fazendo perguntas.
A tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, não acabou com a fome, não distribuiu riqueza e nem sequer derrubou imediatamente o rei. Seu significado foi outro. Pela primeira vez, uma estrutura de poder que durante séculos parecia incontestável podia ser enfrentada por aqueles que viviam sob ela. O que antes era apresentado como vontade divina, tradição ou ordem natural revelou-se uma construção humana. E construções humanas podem ser desfeitas.
Foi também naquele contexto que nasceram duas das expressões mais utilizadas e, frequentemente, mais esvaziadas da política contemporânea: direita e esquerda.
Durante os debates da Assembleia Nacional Constituinte, em 1789, os deputados passaram a se organizar fisicamente de acordo com suas posições sobre o poder da monarquia. À direita do presidente da Assembleia ficavam os defensores de uma autoridade real mais forte, da preservação das prerrogativas da Coroa e de uma transformação mais limitada da ordem existente. À esquerda, aqueles que defendiam restringir o poder do rei e fortalecer a representação nacional. A disposição ganhou significado especialmente durante a discussão sobre o direito de veto de Luís XVI.
Não havia socialistas de um lado e capitalistas do outro. Muitos dos revolucionários eram proprietários, defensores da liberdade econômica e da propriedade privada. A própria Revolução Francesa ajudaria a consolidar os fundamentos jurídicos da sociedade burguesa. A divisão original, portanto, não correspondia às disputas ideológicas que surgiram nos séculos seguintes. Mas havia uma questão fundamental naquela separação: até onde seria legítimo conservar uma estrutura de poder e até onde seria necessário transformá-la?
Essa pergunta segue atravessando séculos, e hoje percebe-se como parte da política contemporânea, inclusive aquela que se identifica com a tradição da esquerda, passou a dedicar enorme energia à administração de uma ordem econômica cujos fundamentos raramente são colocados em discussão.
Não se trata de negar a importância das reformas. Não posso ignorar que direitos trabalhistas, previdência social, educação pública, sistemas universais de saúde e tributação progressiva transformaram a vida de milhões de pessoas. O Estado de bem-estar social europeu demonstrou que sociedades capitalistas podem reduzir desigualdades e ampliar direitos. Essas conquistas não foram concessões espontâneas de um sistema generoso. Foram resultado de organização, conflito, negociação e pressão política.
Mas existe uma diferença entre tornar uma estrutura menos desigual e questionar as relações de poder que a sustentam.
O capitalismo produziu uma transformação material extraordinária. Multiplicou a capacidade produtiva, impulsionou inovações tecnológicas, ampliou mercados e participou de avanços científicos que modificaram a vida humana.
Nunca fomos capazes de produzir tanto. E, no entanto, a capacidade de produzir riqueza continua muito distante da capacidade de garantir que seus benefícios sejam amplamente compartilhados.
Uma sociedade consegue desenvolver inteligências artificiais capazes de executar tarefas intelectuais complexas, mas não consegue assegurar que todos tenham acesso a uma educação de qualidade. Produz alimentos em escala gigantesca e continua convivendo com a fome. Automatiza processos, aumenta a produtividade e, ainda assim, discute a redução da jornada de trabalho como se o tempo livre fosse uma ameaça à economia. A tecnologia avança. A distribuição de seus benefícios permanece submetida a relações de poder muito mais antigas.
Essa contradição não é nova. No século XIX, Marx já chamava atenção para o caráter social da produção e para a apropriação privada de seus resultados. A riqueza não surge isoladamente do talento de um empresário, tampouco apenas do esforço individual de um trabalhador. Depende de conhecimento acumulado, infraestrutura, instituições, investimento, tecnologia e de uma organização coletiva que torna possível a atividade econômica.
Reconhecer a importância do capital e da iniciativa privada não exige aceitar que a distribuição dos resultados seja natural ou inevitável. A propriedade não representa apenas o direito de possuir alguma coisa. Representa também a capacidade de decidir sobre recursos, investimentos, condições de trabalho e oportunidades que afetam a vida de inúmeras pessoas. A desigualdade, portanto, não é somente uma diferença de renda. É uma diferença de poder.
A Revolução Francesa ajudou a estabelecer a igualdade perante a lei como um princípio fundamental da modernidade. Mas a igualdade jurídica nunca foi suficiente para eliminar as desigualdades materiais.
Somos formalmente livres para escolher onde morar, estudar e trabalhar. Na prática, essas escolhas dependem de renda, patrimônio, herança e oportunidades que não estão igualmente disponíveis. Todos somos livres para morar nos Jardins, do mesmo modo que, em 1789, ninguém era proibido de ter nascido nobre.
A ironia revela uma das contradições mais persistentes das sociedades contemporâneas. A liberdade existe juridicamente, mas sua realização concreta depende de condições materiais profundamente desiguais. O mérito individual tem importância, evidentemente. O problema começa quando ele é utilizado para explicar sozinho resultados produzidos também pela origem social, pela herança e pelo acesso desigual às oportunidades. Há uma diferença considerável entre disputar uma corrida e nascer a poucos metros da linha de chegada.
O economista Thomas Piketty dedicou boa parte de sua obra a demonstrar como a concentração patrimonial está relacionada a instituições, sistemas tributários, herança e decisões políticas. A distribuição da riqueza não é um fenômeno exclusivamente determinado pela produtividade ou pelo esforço individual. Ela também reflete as regras que uma sociedade estabelece para organizar a propriedade e transmitir patrimônio entre gerações.
Aqui identifico que uma das maiores vitórias ideológicas do capitalismo contemporâneo foi justamente convencer boa parte da sociedade de que sua organização econômica deixou de ser uma escolha.
O filósofo Mark Fisher chamou de realismo capitalista essa dificuldade de imaginar alternativas ao sistema existente. Não se trata apenas da convicção de que o capitalismo funciona melhor do que outros modelos conhecidos. Trata-se da sensação de que qualquer organização econômica fundamentalmente diferente pertence ao terreno da fantasia.
Conseguimos imaginar carros autônomos, máquinas substituindo trabalhadores e algoritmos reorganizando profissões inteiras. Mas imaginar outras formas de propriedade, de participação econômica e de distribuição da riqueza continua parecendo ficção.
Uma sociedade que se orgulha de sua capacidade de inovar tecnologicamente tornou-se surpreendentemente conservadora quando o assunto é sua própria organização econômica. É nesse ponto que a distinção entre reforma e revolução é importante.
Reformar significa modificar regras, corrigir distorções e ampliar direitos dentro de uma estrutura. Revolucionar, em seu sentido político e histórico, significa transformar os fundamentos dessa estrutura e as relações de poder que a organizam. Não é necessariamente uma diferença de velocidade, tampouco uma defesa da violência. É uma diferença sobre a natureza da transformação pretendida.
Uma reforma tributária pode reduzir a concentração de renda. Uma política habitacional pode ampliar o acesso à moradia. Uma legislação trabalhista pode melhorar salários e condições de trabalho. Tudo isso importa. Mas nenhuma dessas medidas responde, isoladamente, à questão sobre quem controla os recursos produtivos e quanto poder econômico pode ser exercido sobre decisões que deveriam pertencer à esfera democrática.
É possível melhorar o funcionamento do capitalismo sem alterar suas relações fundamentais de propriedade. Também é possível discutir formas de democratizar essas relações sem pressupor que toda experiência de ruptura produza liberdade ou justiça.
A história, aliás, recomenda bastante cautela com qualquer romantização revolucionária.
A Revolução Francesa proclamou liberdade e igualdade enquanto conviveu com exclusões, violência política e novas formas de disputa pelo poder. Hannah Arendt observou que a libertação de uma autoridade não equivale, por si só, à construção de uma liberdade política efetiva. Derrubar uma estrutura não garante que aquilo que venha depois seja mais democrático.
A questão não é transformar a revolução em virtude moral, nem tratar a reforma como uma espécie de covardia política. É reconhecer que ambas respondem a perguntas diferentes e que nenhuma organização econômica deveria ser considerada imune à crítica apenas porque conseguiu sobreviver ao tempo.
O mercado, afinal, nunca existiu fora da sociedade. O funcionamento das empresas é condicionado por decisões políticas. Até aquilo que aprendemos a chamar de liberdade econômica pressupõe uma determinada organização jurídica e social. O que chamamos de economia não está separado da política. É também uma expressão dela.
Ainda assim, habituamo-nos a discutir os limites do orçamento público, a responsabilidade fiscal, os impostos e a eficiência administrativa como se fossem os únicos horizontes possíveis da ação política. São debates indispensáveis, mas insuficientes. A discussão sobre como administrar recursos frequentemente ocupa todo o espaço que poderia ser dedicado a perguntar por que esses recursos e o poder de decidir sobre eles estão distribuídos daquela maneira.
Aqui eu acredito que esteja uma das questões mais difíceis para a esquerda contemporânea.
Se sua origem histórica está associada à contestação de uma ordem considerada imutável, o que acontece quando parte de sua atuação passa a se concentrar na administração dessa mesma ordem?
Não é uma pergunta que se resolva com nostalgia revolucionária.
Mas reconhecer os limites das experiências revolucionárias não deveria significar abandonar a capacidade de pensar transformações estruturais. Formas cooperativas de propriedade, participação dos trabalhadores nas decisões das empresas, democratização do acesso ao patrimônio e novas maneiras de distribuir os ganhos da produtividade são temas que merecem discussão séria, avaliação de resultados e confronto de argumentos.
A política perde alguma coisa quando determinadas perguntas deixam de ser feitas não porque foram respondidas, mas porque passaram a ser consideradas inconvenientes.
As manifestações francesas não representam necessariamente uma rejeição ao capitalismo. Os estudantes querem melhores escolas. Os trabalhadores reivindicam condições de vida mais dignas. Os grupos que ocupam as ruas têm interesses distintos e não apresentam uma proposta única de transformação econômica.
Seria um erro atribuir a essa mobilização uma consciência revolucionária que ela não reivindica. Mas seria igualmente limitado ignorar o que essas manifestações revelam sobre a distância crescente entre as promessas de prosperidade e a experiência material de parte da população.
Durante décadas, estudar, trabalhar, qualificar-se e respeitar as regras foram apresentados como caminhos para uma vida estável. Hoje, muitas pessoas cumprem essas exigências e continuam incapazes de comprar uma casa, acumular patrimônio ou planejar o futuro com segurança.
A frustração produzida por essa distância não conduz necessariamente a soluções democráticas. Movimentos autoritários também podem se alimentar dela, atribuindo a grupos sociais específicos a responsabilidade por problemas econômicos complexos. A insatisfação popular, por si só, não garante emancipação. Pode ampliar a participação política ou servir à concentração ainda maior de poder.
Por isso, a pergunta sobre a Bastilha continua relevante. Não porque a França esteja prestes a repetir 1789, mas porque a história daquele lugar recorda que nenhuma estrutura de poder deveria escapar ao exame crítico de sua legitimidade.
O capitalismo não é uma monarquia absolutista, e suas transformações históricas não podem ser reduzidas a uma única experiência. Mas a concentração de poder econômico também produz consequências políticas, condiciona oportunidades e influencia a capacidade de indivíduos e sociedades decidirem sobre o próprio futuro.
Em 1789, os franceses descobriram que o poder de um rei não era uma lei da natureza. Hoje, continuamos tratando determinadas relações econômicas como se fossem. A monarquia caiu, os privilégios mudaram de nome e a desigualdade encontrou novas formas de se justificar.
A história não se repete, mas tem o hábito desagradável de devolver perguntas que preferimos não responder. A Bastilha já caiu. O que permanece de pé é a nossa dificuldade de imaginar que outras estruturas também possam cair.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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