A força do feminismo transinclusivo no 8M é a fraqueza da extrema-direta – IREE

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A força do feminismo transinclusivo no 8M é a fraqueza da extrema-direta

Erika Hilton

Erika Hilton
Deputada Federal



O movimento de mulheres, organizado em coletivos, associações, nos partidos políticos, nos sindicatos e outros, é responsável por colocar nas avenidas, nas ruas e nos meios digitais a proposta de luta política para o 8 de março, data que faz alusão ao dia internacional da mulher. Esse calendário de lutas e manifestações traz consigo tensões políticas em torno do que seria “ser mulher” para a arena política.

Nesse contexto, queria refletir sobre o imaginário político que está em disputa no movimento feminista e na sociedade brasileira, contribuindo para o diálogo ao trazer elementos que caracterizam a importância do transfeminismo na luta contra a extrema-direita, contra o conservadorismo e as políticas antigênero, e como isso se relaciona com TRANSformar o 8M em um espaço que defenda a presença da comunidade trans e travestis.

Todos os anos, são escolhidos motes que caracterizam a conjuntura política, os desafios e as prioridades da vanguarda feminista na luta por direitos. Esse ano, em São Paulo, o lema da marcha do 8M diz: “Nas ruas pela vida das mulheres e legalização do aborto! Contra as violências, as privatizações, o fascismo e o genocídio do povo negro e palestino!”. Já em Santa Catarina, o mote posicionou-se sobre a conjuntura dos desafios de enfrentamento ao reacionarismo de setores que se pretendem “críticos de gênero”, mas ignoram a realidade social que o gênero produz sobre mulheres trans e travestis. Numa diretriz interseccional, as organizadoras do 8M reforçaram a necessidade de um feminismo transinclusivo com o mote: “TRANSformando LUTO em LUTAS: nos queremos vives/as e em todos os lugares”.

Tem chamado atenção nos últimos anos o avanço de feminismos transexcludente ou essencialistas – vocês devem conhecer várias dessas vertentes, especialmente, o feminismo radical – que baseiam sua visão política na reivindicação e redução da categoria “mulher” à atributos anatômicos, biológicos e naturais – bem semelhante a como o sistema patriarcal, hétero e misóginos nos define.

E quem são esses grupos e quais suas pautas? Podem as mulheres conservadoras e as feministas terem agendas em comum? Os feminismos transexcludentes têm atuado de forma agressiva contra os direitos das pessoas trans, e uma das consequências subjacentes dessa movimentação é a aliança dessa política discriminatória com setores da extrema-direita. As respostas que seguem dessas perguntas nos alertam para os novos (velhos para algumas de nós) desafios da esquerda e do movimento feminista, especialmente no âmbito das greves e marchas pelos direitos das mulheres.

No Brasil, o feminismo transexcludente vêm ganhando adesão, embora a questão ainda não seja sempre lida como relevante por alguns setores feministas ou do campo progressista. Entretanto, é preciso dizer como essas articulações estão de mãos dadas com o cenário de ataque à democracia e aos direitos humanos, não só no nosso país, mas em várias partes do mundo. E por mais que existam diferenças e particularidades em contextos nacionais, é nítido o caráter transnacional deste movimento.

São exemplos dessa ofensiva conservadora contra a população trans e LGBT no país, ações tanto no cenário legislativo – no qual mais de 77 políticas antigênero/anti-trans foram propostas de 2019 até 2023, no Congresso Nacional. Quanto os ataques às mulheres e meninas para o acesso ao aborto legal, seja com a proposta do Estatuto do Nascituro ou com investidas contra espaços de saúde que realizam os procedimentos. Conjuntamente, o direito ao aborto e autodeterminação das pessoas trans são as pautas morais mais utilizadas pela extrema-direita para mobilizar suas bases.

O Bolsonarismo e o feminismo transexcludente estão alinhados na propaganda de repúdio à “ideologia de gênero”. Ambos  dizem atuar “em defesa das mulheres”, embora estejam intensificando os ataques à identidade de gênero e aos direitos das LGBTs. Apesar de aparentemente ambos figurarem em lados opostos do espectro político, as posições transfóbicas dessas vertentes feministas convergem na defesa dos papéis de gênero fixos, imutáveis e baseados no genital. Em alguns casos, esse feminismo transexcludente tem promovido discursos até de cura gay e conversão sexual.

Parte dessas premissas do feminismo radical são heranças do racismo científico, tese que outrora negou a humanidade de pessoas negras e propagou um determinismo “assassino”, “violento”, “estuprador” ao nosso corpo. E se prestarmos atenção, são adjetivos muito semelhantes utilizados por esse setor para impedir que pessoas trans e travestis tenham direito ao uso do banheiro conforme sua identidade de gênero.

O feminismo transexcludente, muitas vezes, torna-se uma hashtag do momento e um veículo de promoção de discriminação e de supremacia. Usam do discurso e da estratégia conservadora para colocar a transfobia na ordem do dia nas redes sociais.

No Reino Unido, esses feminismos estão já sedimentados no mainstream dos movimentos sociais, com presença na mídia e no Estado, sendo financiados por figuras proeminentes, numa articulação para enfrentar direitos e garantias fundamentais para pessoas trans.

Há movimentações onde estereótipos e preconceitos contra pessoas trans são expressamente manifestos, que para muitos setores são analisados como atos verbais e “acadêmicos” , e não como atos verdadeiramente discriminatórios e transfóbicos. Já a extrema direita costuma dizer que é a liberdade de expressão ou se esconde atrás da imunidade parlamentar.

É como se nós, pessoas trans e travestis, possuíssemos humanidade incompleta, e por isso não podemos participar igualitariamente dessas construções políticas e gozar de qualquer direito à manifestação. Como se nossa sobrevivência colocasse em risco as pautas históricas do feminismo.

Queria dizer que conhecemos as ruas, as esquinas, seus perigos e entraves para as nossas sobrevivências. Somos acostumadas a não ter direito à cidade, ao transporte público, ao posto de saúde, ao atendimento humanizado e ao mercado de trabalho. No geral, não temos direito ao nosso próprio nome e gênero nas instâncias oficiais. Também somos vítimas do feminicídio, da estigmatização e da violência de gênero.

É por meio da estratégia de disputar a consciência política de milhares – nas ruas – que o movimento feminista na América Latina e no mundo todo tem arrancado, nos tribunais e no Parlamento, decisões e normativas importantes para as mulheres, como a legalização do aborto na Argentina e, mais recentemente, na França. Conquistamos, por essa postura, aqui no Brasil, avanços como a Lei Maria da Penha, a criminalização do feminicídio, a superação da tese de legítima defesa da honra, lei do minuto seguinte e política de dignidade menstrual, e outros significantes direitos na esfera trabalhista, como reconhecimento do vínculo trabalhista de domésticas e a Lei da paridade salarial;

Compreendo que parte do movimento trans e travesti brasileiro também se inspira nessa estratégia de luta, por isso, tem utilizado as ruas para requerer políticas públicas e avanços na agenda de cidadania para o grupo, à exemplo da Marsha Trans nacional e da Marcha Transmasculina, que aconteceu em São Paulo. Nenhum momento poderia ser mais propício para disputar as ruas como agora. Temos entendido isso, porque quem está nas ruas coloca na agenda política as tensões necessárias para o diálogo e para a possibilidade de avanço das nossas pautas históricas.

A mobilização e organização política do 8M também dá suporte, orientação e o tom para outras marchas políticas no país, principalmente sendo uma das primeiras manifestações após o ato de 25 de janeiro, na Avenida Paulista, que reuniu apoiadores do ex-presidente Bolsonaro pedindo anistia para os que arquitetaram e participantes dos atos antidemocráticos e golpistas de 8 de janeiro de 2023. Não podemos perder de vista que essa narrativa e o discurso hegemônico sobre o que é ser mulher está em disputa, seja no parlamento, no posto de saúde, no acesso ao aborto legal ou nas ruas. O discurso biologizante de gênero tem como empreitada estigmatizar mulheres, reduzir a representatividade política “ao sexo” (quem lembra da Damares?) e diluir a luta contra o patriarcado.

Todos os anos nos reunimos nas ruas para pedir por direitos, disputamos os rumos das políticas públicas, requeremos estratégias de sobrevivência para o Estado, e estamos disputando a agenda política porque TODAS nós estamos morrendo.

Por isso, nossa tarefa nesse 8M também consiste em aprofundar o debate sobre como o feminismo transexcludente está fazendo sala para o golpismo e a extrema-direita. Nossas lutas históricas não podem ser cooptadas pela extrema-direita, precisamos estar alertas e evitar que a representação feminina na política e na luta por direitos seja sequestrada por movimentos antigênero e antimulheres, disfarçadas sob um manto de proteção às “mulheres autênticas”.

Mas me orgulha muito que muitas mulheres entenderam o perigo dessa política. Às vésperas do 8M deste ano, mais de 200 organizações assinam a carta-compromisso por um feminismo transinclusivo, lançada pelas Frentes Feministas 8M Brasil SC – Florianópolis, Jaraguá do Sul e Joinville, juntamente com organizações de classe e coletivos/as feministas que as compõem.

Por fim, desejo mais um ano de muita luta para as mulheres brasileiras. Nas ruas, nas esquinas e no parlamento ousaremos permanecer vivas, lutando por um futuro para todas nós.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Erika Hilton

Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. ‌Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.

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