A febre da inteligência artificial: sintomas e expectativas – IREE

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A febre da inteligência artificial: sintomas e expectativas

Isac Costa

Isac Costa
Diretor do IREE Mercado



Coluna De olho no mercado

Desde o lançamento do ChatGPT, notamos uma escalada de otimismo acerca da inteligência artificial e seu impacto em todos os setores da economia, transformando o modo como produzimos e nos relacionamos. Com razão, o historiador Yuval Harari afirmou que a capacidade de manipulação da linguagem pela IA é uma espécie de “ataque hacker” ao “sistema operacional” de nossa civilização.

A IA generativa, em especial, traz possibilidades incríveis para aprimorar processos criativos, pesquisa e geração de conteúdo, empoderando as profissões intelectuais – e, em certos cenários, podendo torná-las obsoletas. A integração dessa tecnologia a ferramentas do cotidiano – como, por exemplo, o Microsoft CoPilot – nos mostra que é possível automatizar tarefas chatas sem incorrer em custos elevados ou saber programar. Basta saber fazer as perguntas certas.

Nvidia: transformando silício em ouro

No início de 2024, as manchetes sobre o tema deram especial atenção à Nvidia, empresa famosa por produzir chips para a realização de cálculos complexos com eficiência, com notável aplicação no setor de jogos e na mineração de Bitcoin.

Os chips da Nvidia são essenciais para a IA generativa, o que elevou a companhia ao patamar de protagonista dentre as big techs e as empresas com maior valorização ao longo de 2023.

No quarto trimestre de 2023, a receita e o lucro da companhia foram, respectivamente, de USD 22,1 bilhões e USD 12,2 bilhões, com uma alta de mais de 225% e 700%, respectivamente, com relação aos resultados do ano anterior. Os resultados divulgados pela Nvidia têm superado todas as expectativas e suas ações quadruplicarem de valor desde 2022, credenciando a companhia entrasse para o seleto clube das empresas que valem mais de 1 trilhão de dólares (em 09/12/2024, a Nvidia valia USD 1,7 trilhão).

A euforia em torno da companhia está contagiando outras diretamente relacionadas, como a israelense Nano X Imaging e o grupo SoundHound AI, dentre outras, que tiveram valorizações relevantes após a divulgação de investimentos e parcerias com a Nvidia – uma espécie de Midas que transforma silício em ouro.

A corrida dos chips para Inteligência Artificial

Na cola da Nvidia, encontramos a Arm Holdings, que conseguiu captar um valor recorde em uma oferta pública de ações em 2023, alcançando um valor de mercado de USD 65 bilhões, apesar da forte seca de IPOs no período. A operação, que rendeu USD 5 bilhões para o SoftBank, colocou a empresa nos holofotes de analistas e gestores.

Além da Nvidia e da Arm, a AMD é outra fabricante de chips que tem feito anúncios de produtos voltados para soluções de inteligência artificial, atraindo a atenção do mercado e uma corrida por suas ações, dobrando seu valor de mercado no último ano.

Definitivamente, estamos em uma “corrida do ouro” onde pás e picaretas foram substituídos por outro tipo de hardware.

É cedo para dizer que estamos em uma bolha da IA?

O otimismo em torno da IA tem estimulado – e sido estimulado – por altas recentes de outras big techs como Microsoft e Meta. A expressão “exuberância irracional”, cunhada por Alan Greenspan e consagrada pelo economista Robert Shiller, volta às conversas e há quem diga que isso pode não ser um bom sinal.

A ansiedade e euforia em torno dos resultados da Nvidia são combustíveis para um novo boom relacionado às empresas de tecnologia no mercado de ações. Meses de lateralização e baixas nos preços foram interrompidos por uma retomada das altas, diante de cortes de taxas de juros e expectativas de maior estabilidade econômica. Com isso, o apetite pelo risco voltou a aumentar e o setor de tecnologia voltou a ditar o rumo dos mercados.

Contudo, o descolamento entre preços e fundamentos econômicos, juntamente com a aposta em modelos de negócios não validados e que podem não ser sustentáveis em prazos maiores nos permitem questionar se estamos diante de uma nova bolha.

Em contrapartida, o otimismo tem sido respaldado por números concretos de aumenta de demanda por chips e serviços de IA, juntamente com a constatação de que há oportunidades ainda não exploradas para ganhos de eficiência e produtividade em praticamente todos os setores da economia. Enquanto tecnologia de propósito geral, o impacto da IA em nossas vidas pode ser tão grande ou maior que o da eletricidade ou da própria internet.

Por isso, acredita-se haver espaço para novas altas, dada a rápida adoção de novos produtos e serviços relacionados à IA. Por ora, as companhias que estão guiando o ritmo dos mercados não são novatas ou comparáveis às frágeis pontocom do início do século. Para diagnosticar o boom da IA como uma bolha, talvez tenhamos que esperar mais um pouco, com rodadas de investimentos e aberturas de capital a preços exagerados e uma escalada da euforia. Enquanto houver liquidez, não há limite para a euforia e a irracionalidade do mercado.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Isac Costa

Sócio de Warde Advogados, professor do Ibmec, do Insper e da LegalBlocks e Diretor do IREE Mercado. Doutor (USP), mestre (FGV) e bacharel (USP) em Direito e Engenheiro de Computação (ITA). Ex-Analista da CVM, onde também atuou como assessor do Colegiado.

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