4 de dezembro de 2025
Eu sou muito curiosa. Curiosa de um jeito que me pego espionando o ser humano como se fosse um bicho raro no zoológico social online. E suspeito que essa curiosidade não é só minha. No ambiente virtual, quase todo mundo é investigador. Um exército de Sherlocks com tempo ocioso. Basta alguém destilar ódio nas redes e lá vamos nós clicar no perfil para entender o espécime em questão.
E o padrão é quase estatístico. Em grande parte desses perfis, a agressividade anda de mãos dadas com algum tipo de autodeclaração religiosa. Servo de Deus. Escolhida do Senhor. Família é projeto de Deus escrito sobre fotos de frases passivo-agressivas. A bio virou altar. O sagrado exposto como credencial moral que pretende purificar todas as contradições.
Esse fenômeno revela uma dissonância profunda entre identidade moral proclamada e prática social efetiva. A religião não aparece como experiência espiritual íntima e trabalhosa. Surge como instrumento de validação do eu. É o que a psicanálise reconheceria como defesa narcísica. A fé performada funciona como blindagem psíquica contra qualquer crítica, deslocando para Deus a responsabilidade pela própria violência. O sujeito não ataca. “Corrige em nome do amor”. Não humilha. “Traz a verdade”. A agressividade perde o nome. E o ego ganha uma auréola emprestada.
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Sob a lente da sociologia, essa dinâmica opera como forma de poder simbólico. A invocação do sagrado confere capital moral e busca produzir uma superioridade ética automática. Quem se coloca ao lado de Deus reivindica imunidade à contestação. Assim, a religião deixa de ser lugar de construção coletiva de sentido para tornar-se tecnologia de legitimação da hostilidade. O cristianismo vira rótulo. A fé vira distinção social. Deus vira argumento de autoridade.
Esse deslocamento tem efeitos concretos sobre a vida pública. Quando a religião é utilizada para suspender os limites éticos da convivência, abre-se espaço para a intolerância se travestir de virtude. A política de inimizades encontra um combustível emocional poderoso. Não falamos da religiosidade genuína, que transforma o sujeito para melhor e opera no âmbito silencioso das escolhas diárias. Falamos da religião como espetáculo, que transforma a espiritualidade em palco e a agressão em performance de pureza.
Há também uma dimensão psíquica essencial. Quanto mais alguém precisa declarar que é bom, menos acredita que o seja. Quanto mais se esforça para parecer santo, mais luta contra aquilo que o atormenta internamente. A fé ostentada como marca pessoal revela um sofrimento psíquico mal elaborado. O narcisismo se fantasia de santidade para não encarar que a violência nasce de dentro, não do outro.
O que está em disputa não é a fé, mas o uso instrumental do sagrado para justificar a crueldade. Esse fenômeno revela uma crise democrática e afetiva. Democrática porque mina a igualdade no debate público ao colocar alguns acima do questionamento. Afetiva porque substitui o cuidado pelo ataque, a compaixão pela rivalidade, o evangelho pela vaidade.
Recuperar o sentido da espiritualidade como experiência de transformação íntima é um desafio urgente. A fé que se mede pela capacidade de acolher. A fé que reconhece o outro como igual em dignidade. A fé que não precisa humilhar ninguém para se validar. Quando Deus vira escudo para a violência humana, não estamos diante de religiosidade. Estamos diante do ego, glorificado como se fosse transcendência.
Porque, no fim, nenhuma bio salva ninguém e nenhum versículo justifica ferir o outro.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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