A falsa dicotomia entre salvar vidas ou salvar a economia – IREE

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A falsa dicotomia entre salvar vidas ou salvar a economia

Juliano Medeiros

Juliano Medeiros
Presidente nacional do PSOL



Desde o início da pandemia do novo coronavírus, um ano atrás, o governo Bolsonaro criou uma falsa dicotomia entre “salvar vidas” ou “salvar a economia”. Por trás dessa oposição estava a convicção do presidente da República de que a pandemia seria um inconveniente rápido e de baixo impacto, como ficou evidenciado em diversas declarações.

Conforme a pandemia foi revelando sua gravidade, Bolsonaro iniciou uma verdadeira cruzada contra as medidas de isolamento social recomendadas pelos organismos sanitários internacionais e pela esmagadora maioria dos epidemiologistas e infectologistas.

Promovendo aglomerações nos bairros pobres do Distrito Federal e defendendo que apenas idosos ficassem em casa, Bolsonaro chamou as políticas de isolamento social de “conversinha mole” e afirmou que “ficar em casa é para os fracos”. Por trás do negacionismo de Bolsonaro, estava uma suposta defesa da economia.

Um visitante desavisado que chegasse ao Brasil hoje poderia supor, diante da postura do presidente, que mesmo minimizando os efeitos da pandemia, o governo tomou todas as medidas necessárias para manter a economia funcionando. Afinal, entre a vida e a economia, Bolsonaro teria optado explicitamente pela segunda e teria que mostrar resultados. Mas não é isso que vimos.

Em 2020 o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma queda de 4,1%. Essa queda teria sido muito maior não fosse a concessão do Auxílio Emergencial de R$ 600 aprovado pela oposição contra a vontade de Bolsonaro e de seu ministro da economia, Paulo Guedes. A proposta do governo – que inicialmente era contra a concessão do benefício – era oferecer apenas R$ 200.

Graças ao Auxílio Emergencial e às medidas consignadas na PEC do chamado “Orçamento de Guerra”, foram despejados quase R$ 600 bilhões na economia, evitando um desempenho ainda pior do PIB (análises preliminares do FMI previam uma queda que podia chegar a 9%). Aliás, o chamado Orçamento de Guerra foi importante porque flexibilizou as draconianas regras fiscais e garantiu recursos para o combate à pandemia. A proposta surgiu na Câmara dos Deputados. 

Nem a concessão de crédito para pequenos negócios, que juntos empregam 72% dos trabalhadores do país, foi viabilizado pelo governo Bolsonaro. De acordo com dados do próprio SEBRAE de outubro de 2020, apenas 22% dos que tentaram acessar alguma linha de crédito público tiveram sucesso. Sem empréstimo do governo, micro e pequenos empreendedores recorreram ao sistema bancário privado, com taxas maiores, aumentando a inadimplência e as falências. Só em São Paulo, mais de 700 mil pequenos negócios fecharam.

O sistema bancário privado foi um dos grandes beneficiados pela incompetência de Bolsonaro. Depois do Banco Central colocar à disposição mais de R$ 1,2 trilhão, os bancos ampliaram a oferta crédito e lucraram R$ 61 bilhões, enquanto boa parte da economia segue patinando. Aliás, das 341 empresas de capital aberto no Brasil, 62% delas mantiveram seus lucros enquanto o Brasil passa pela maior crise do século com aumento do desemprego e da miséria.

São mais de 14 milhões de brasileiros e brasileiras sem nenhuma forma de trabalho. Cerca de 5,5 milhões pararam de procurar emprego e mais de 30 milhões estão subutilizados. A taxa oficial de desemprego é de 13,5% mas pela primeira vez temos menos de 50% da população economicamente ativa empregada.

Como vemos, a opção de Bolsonaro por “salvar a economia” em vez de vidas – que seria absurda por si só – se mostra também mentirosa. Os números apontam um cenário de terra arrasada e as duas medidas mais importantes para mitigar os efeitos da pandemia e evitar uma tragédia ainda maior foram elaboradas pelo Congresso Nacional: Auxílio Emergencial e PEC do Orçamento de Guerra. O crédito aos micro e pequenos empreendedores foi escasso e tardio, beneficiando apenas o sistema financeiro privado.

Sem saída, Bolsonaro culpa prefeitos, governadores e até o STF por permitirem as políticas de isolamento social. Mas essas instâncias de poder não emitem moeda, não administram o sistema da dívida pública, não controlam as reservas do Tesouro. Quem maneja a política econômica é Bolsonaro e Paulo Guedes. E é deles a responsabilidade pela tragédia da economia brasileira.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Juliano Medeiros

Historiador, mestre em História e doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi Diretor-Presidente da Fundação Lauro Campos (2016/2017) e desde 2018 é Presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). É autor e co-organizador dos livros "Um partido necessário: 10 anos do PSOL" (FLC, 2015) e "Cinco Mil Dias: o Brasil na era do lulismo (Boitempo, 2017).

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