A era do descarte instantâneo – IREE

Colunistas

A era do descarte instantâneo

9 de junho de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Outro dia me peguei pensando em como as coisas mal existem antes de deixarem de existir. As palavras que usamos, as pessoas que seguimos, as opiniões que repetimos, os amores que romantizamos e até os corpos que desejamos se vão com a mesma velocidade com que aparecem no nosso feed. E nem nos damos conta, porque a lógica é essa: sentir pouco, consumir muito, esquecer rápido.

Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida esse tempo em que nada mais é feito para durar, nem o trabalho, nem os relacionamentos, nem a identidade. Mas talvez já tenhamos ido além. Talvez tenhamos deixado até a liquidez para trás, entrando numa era em que tudo é tão volátil que nem chega a se liquefazer, pois já nasce evaporado.

As redes sociais são o exemplo clássico desse descarte imediato. A cada rolagem, um novo acontecimento exige nossa atenção e, de preferência, uma opinião imediata. Seguimos gente que não conhecemos, repetimos ideias que mal processamos, idolatramos influenciadores que duram o tempo de um trimestre. É como se o algoritmo fabricasse não só conteúdo, mas também relevância, autoridade e até moral.

No meio disso tudo, o capitalismo segue celebrando. Lucra com a pressa, com a ansiedade, com a distração generalizada. Lucra com nossa obsessão pelo novo, mesmo que o novo seja apenas o velho embalado em outra estética. Lucra com o fim da memória, porque quem esquece rápido compra de novo, quem não elabora substitui, quem não pensa repete.

E dessa forma vivemos como se estivéssemos em rascunho permanente: nada é definitivo, nada exige cuidado, nada demanda elaboração. É o tempo da não permanência. Nada pode pesar, demorar ou prender. Aprendemos a não criar laços, a não insistir, a não nos apegar. E a isso chamaram de liberdade. Mas talvez seja só medo de sofrer, ou pior, de perder tempo.

O afeto virou fardo. A profundidade, uma ameaça. O apego, sinônimo de fraqueza. E, nesse cenário de vínculos descartáveis, tudo se desfaz antes mesmo de doer. Relações não têm tempo de criar história. Ideias não amadurecem. A intimidade vira exposição. O cuidado cede espaço à performance. Aprendemos a sair antes de ficar, a esquecer antes de lembrar, a deixar ir antes de saber o que poderia ter sido. A liquidez virou o álibi perfeito para não tentar.

Franco Berardi escreveu que o futuro foi cancelado. E eu entendo. Se o tempo foi achatado num presente contínuo onde tudo precisa acontecer agora, o futuro perde sua função. Planejar virou sinônimo de ansiedade. Lembrar se tornou luxo. Sustentar qualquer coisa, seja uma ideia, um afeto, uma causa, parece esforço inútil.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, diz que não vivemos mais sob repressão, mas sob excesso de estímulos, de positividade, de performance. Tentamos dar conta de tudo, enquanto nos sentimos vazios de quase tudo. O tempo virou produtividade, o descanso virou culpa. A dor precisa ser bonita, a raiva precisa viralizar, a vulnerabilidade precisa ser útil. Não basta viver, é preciso rentabilizar a experiência.

E o julgamento moral? Um espetáculo. O cancelamento virou ritual, mas sem consequência. O erro de ontem vira o bordão de amanhã. Figuras públicas caem e voltam, se reinventam, se reposicionam. O importante é o capital simbólico do momento. A coerência virou peça de museu. E a ética… bem, a ética precisa caber em quinze segundos.

Paul Virilio dizia que, quando tudo acontece em tempo real, nada realmente acontece. Talvez por isso estejamos todos anestesiados. Vemos tudo, sabemos tudo, comentamos tudo mas quase nada nos atravessa. Tudo escorre. Ou melhor, tudo evapora.

Às vezes me pergunto como vamos ensinar nossas filhas e filhos a esperar, a sustentar um vínculo, a confiar num processo, a permanecer. Como educar para o cuidado num tempo em que tudo é feito para ser consumido e descartado? Como imaginar futuro se o algoritmo só se alimenta do agora?

Talvez o gesto mais revolucionário hoje seja desacelerar. Voltar a demorar. Reafirmar o valor da repetição, da dúvida, da contradição. Sustentar uma ideia até que ela se torne pensamento. Um afeto até que vire vínculo. Uma escolha mesmo quando ela deixa de render curtidas. Talvez resistir seja justamente não se adaptar. Rejeitar a lógica do engajamento contínuo. Reivindicar o silêncio, a pausa, a memória. Porque, se tudo está sendo feito para evaporar, talvez o que mais precisamos agora seja de raiz, de algo que fique, que não se dobre à pressa, que desafie a lógica do próximo.

O que transforma não é o que passa. É o que permanece. Num tempo em que tudo evapora (opiniões, afetos, lutas) permanecer virou subversão. Enquanto nos empurram para a pressa, para o post do dia, para a causa do momento, seguimos construindo no tempo lento da profundidade. Permanecer é não se render ao esquecimento rápido que o algoritmo impõe. É manter viva a memória, a denúncia, o projeto de futuro. É saber que transformar exige mais do que visibilidade, exige consistência, coragem e fôlego para não desaparecer na próxima rolagem.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

Leia também