A Equidistância, a Emenda e o Chofer Particular – IREE

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A Equidistância, a Emenda e o Chofer Particular

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Os bolsonaristas sonham em jogar peteca com a careca de Xandão.

O que se passa na cabeça dessa gente? Afinal, cabeça eles têm, apenas não se sabe se tem algo dentro. Alexandre de Moraes – e o STF – foram os principais responsáveis por Bolsonaro ter tido chance de ganhar a eleição. O monte de atitudes ilegais – distribuição de dinheiro, por exemplo – feita por seu “governo”, mesmo sendo muito, muito ilegal, teve o silêncio da corte. E lembrem, no dia da eleição, ao saber dos bloqueios ilegais da PRF nas rodovias perto de locais pró-Lula, chamou seu diretor e disse:

-Aiaiai!

E nada mais. A ilegalidade continuou até o fim do dia.

Moraes foi escolhido por um governo ilegítimo. Mas no fim das contas acabou sendo o fiel da balança na retomada da democracia.

Aí, você que me admira e me lê com sofreguidão, pergunta:

-Mas de que lado você está?

E eu, mão no peito e olhar no horizonte, respondo:

-Em qualquer lado que desagrade os bolsonaristas.

-Mas você está falando mal do Xandão!

-Não, não estou. Estou deixando as coisas em perspectiva, para não ficar muito decepcionado quando mudarem.

Essa conversa esquizofrênica é uma pequena amostra do que se passa em meu combalido coração. Por exemplo: todo o mundo civilizado ataca o orçamento secreto, certo? Coisa da direita. Pois é, temos um negócio chamado “emendas pix”, que é bem parecido com isso, que foi criado por… Gleisi Hoffmann. E relatado por Aécio Neves.

Lula é, disparado, o melhor presidente da história do Brasil. E seguramente o mais inteligente, com mais jogo de cintura. Quando de seu primeiro governo, diziam que ele só conseguiu aquilo tudo por ter recebido um país organizado pelo seu antecessor. Mas e agora? Pegou um país destruído, um déficit enorme, e acumula recordes positivos. Mas a imprensa reclama. 

-Lula não está sabendo negociar com o Congresso!

Mas COMO negociar com essa gente? Se até de dentro de seu partido saem esses absurdos, como negociar com quem não tem compromisso com nada que não seja seu lucro pessoal? Felipe Netto chamou Lyra de “escrementíssimo”. Acabou sendo um metacomentário, demonstrando que as redes precisam ser reguladas. Ofensa, não pode, e pronto. E Lyra ficou boladão, quer processar o bom Netto!

Mas, pera… Como é que é? E a liberdade de expressão????

Desde que Bolsonaro, num momento emocionante, bateu continência para a bandeira americana, seu gado decidiu que os EUA são aqui. E resolveu que a primeira emenda da constituição deles, que teoricamente garante liberdade total de expressão, é a nossa. 

Não, não é. E nem a deles é tão liberal assim na vida real. Afinal, o que diz essa coisa? Ói (da Wikipedia):

“O congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de discurso, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações de queixas”. 

Vejam só, que nem lá o direito é absoluto: por exemplo, o direito das pessoas é de se reunirem PACIFICAMENTE. Em 8 de janeiro nem o cocô do cidadão no salão do Congresso foi pacífico. Aquele gado não foi confinado por causa de suas expressões, foi por terem quebrado tudo. Confesso que tenho uma certa pena do idiota que resolveu atender aos clamores do mitinho e ir salvar a pátria – e pegou 17 anos de cana. Mas, se não precisa de teste de QI para votar, acefalia também não é desculpa para não ir em cana. 

Dentro desse painel organizadíssimo que são minhas crônicas, faltou uma palavrinha sobre o “moderado” Tarcísio. Aparentemente a nova aposta da extrema direita, claramente deixando a direita órfã (representada por nossos principais jornais) suspirando esperançosa. Mas note-se: entre muitas outras coisas, o cidadão recusou dinheiro do PAC para a cultura e as mortes cresceram 138% em seu governo. Ele não gosta da ideia de câmera corporal na sua doce polícia.

Se houvesse câmeras corporais naquela época, “Tropa de Elite” não teria existido.

-Capitão Nascimento, essa imagem…

-Qual?

-Um rapaz com um saco na cabeça…

-Ah, ele estava sufocando, foi brincar com saco de mercado, deu nisso. A gente salvou ele. 

-Mas tem mais de 20 pessoas diferentes com saco na cabeça!

-Ah, tem pouca opção de lazer na favela, fica todo mundo brincando disso, foi um custo salvar todo mundo.

Concluo estas bem-traçadas no primeiro de maio. Para sempre, dia do Ayrton Senna. A gente fica imaginando como seria se ele tivesse se recusado a correr naquele maldito domingo. Jamais saberemos, mas tenho certeza que ele nunca se sujeitaria a ser chofer particular de cretino no dia da posse.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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