A eleição despercebida e a revisão de expectativas – IREE

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A eleição despercebida e a revisão de expectativas

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



“Esse ano está diferente, está tudo mais devagar”. Essa frase resume o sentimento dos eleitores das capitais brasileiras em diversas pesquisas qualitativas quando falam sobre o clima da campanha eleitoral em andamento. A especulação, é claro, deriva da pandemia do novo coronavírus. Contudo, há mais elementos nessa questão. Primeiramente, chamo atenção para a reduzida importância atribuída ao pleito pela grande mídia.

A cobertura televisiva da eleição norteamericana, por exemplo, aparece com desproporcional centralidade. Se não fosse a propaganda eleitoral gratuita, até a data do primeiro turno um eleitor que passasse o dia todo assistindo televisão saberia mais sobre as propostas de Trump ou Biden do que dos candidatos à prefeitura e a vereança da sua cidade.

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Ou seja, não é apenas a pandemia que eclipsou a eleição, mas a opção das emissoras em deixar a eleição local em segundo plano. Sem grande esforço, os principais debates foram cancelados, e na maioria dos casos sequer uma alternativa remota foi oferecida ao público.

Se a obtenção de informação é um elemento essencial para o processo de decisão do voto, o problema é ainda mais grave quando lembramos que algumas alterações da minirreforma eleitoral de 2015, como a redução da duração da campanha de 90 para 45 dias na eleição de 2016, já havia prejudicado, e muito, o acúmulo de conhecimento sobre as propostas e biografia dos candidatos pelo eleitorado.

Diversos analistas supunham que a campanha de 2020, tal como em 2018, seriam quentes mesmo nas redes sociais, em especial no WhatsApp. Não é o que os dados revelam para as capitais. Para o caso do Rio de Janeiro, por exemplo, o Datafolha mostrou em uma pesquisa recente que somente 32% dos entrevistados receberam, via Whatsapp, algum conteúdo sobre a eleição (somando nesse índice a divulgação de candidatos a prefeito e vereador).

Muito influenciados pelo resultado eleitoral do pleito passado e pelo modo digital de fazer campanha do então candidato Jair Bolsonaro, os analistas não demoraram a derrubar a importância do horário eleitoral para as campanhas. De fato, em 2018 a importância foi pífia. Se o tempo da propaganda eleitoral em bloco foi drasticamente cortado no rádio e na TV, houve maior permeabilidade aos spots, aqueles breves comerciais que saltam “de surpresa” ao longo da programação: 68% dos cariocas já assistiram algum comercial curto na televisão nessa campanha.

Não se trata aqui de afirmar a supremacia da propaganda eleitoral vis a vis as redes sociais para a decisão do voto. Contudo, a campanha eleitoral de 2020 já trouxe como lição que um pleito não deve explicar o subsequente, ainda mais quando se trata de âmbitos e cargos distintos.

A eleição de 2018 foi a exceção, e os elementos contextuais devem ser considerados em qualquer boa análise política. Assim, derivar interpretações a partir de um único pleito tem se mostrado um grande equívoco.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e consultora da UNESCO. Coordenou o "Iesp nas Eleições", plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em diversas campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

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