A desigualdade como política de Estado – IREE

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A desigualdade como política de Estado

Walfrido Warde

Walfrido Warde
Presidente do IREE



O artigo “A desigualdade como política de Estado” foi escrito originalmente pelo presidente do IREE, Walfrido Warde, para a plataforma Mídia4P.

Não há igualdade de pontos de partida na competição entre a senzala e a casa grande.

Uma maçaroca liberal tomou conta do pensamento de brasileiras e brasileiros nos últimos anos, ao que parece, escorada numa espécie de mal-estar, uma náusea, uma indisposição causada pela atuação de governos de esquerda.

Como esses governos propagavam um discurso de reversão das desigualdades sociais por meio da atuação do Estado, quando caíram em desgraça, também se desgastou toda a solidariedade estatal.

E, como deixar pessoas desvalidas à própria sorte é feio, muita gente logo lançou mão do pensamento liberal para justificar o desamor e a insensatez. Sob a sua lógica, políticas de Estado seriam substituídas pela “mão invisível do mercado”, que naturalmente se encarregaria de gerar empregos e renda.

Enquanto essa maravilha espontânea não acontece, todo o alívio ao frio e à fome viria dos muitos filantropos do nosso país. Essas ideias têm a densidade e a composição de água de bidê.

Elas se esquecem que os ‘Brasis’ colonial e imperial compraram gente, seres humanos, da África. Escravizaram pessoas até o final do século XIX. Libertos foram lançados à própria sorte, completamente esquecidos pelo Brasil republicano.

A elas, não foram dedicadas quaisquer políticas de Estado, até que, apenas recentemente, na primeira década do século XXI, surgissem as primeiras iniciativas estatais dedicadas a compensar o massacre grupal a que essas “minorias” étnicas foram submetidas.

Não há igualdade material entre jovens negros e brancos. Não competem de igual para igual aqueles que, de um lado, são submetidos à miséria, ao abuso policial, a um ambiente de crime e desalento, à falta de estrutura do ensino público fundamental e, de outro, os criados a “leite de pera”, nas melhores escolas, sob a atmosfera asséptica dos condomínios fechados.

Não há motivos para que os últimos, orgulhosos e jactantes, confiem que suas capacidades respondem por sua posição social. Não respondem! Muitos deles não ocupariam tais posições predominantes se a competição fosse materialmente igual, ou seja, se todos tivessem os mesmos meios, os mesmos subsídios.

Essa desigualdade de tratamento, não se enganem, é precisamente uma política de Estado.

Uma política que perpetua desigualdades cruéis, que premia os filhos e filhas de uma elite branca, em detrimento da massa crescente de afrodescendentes desvalidos do nosso país.

A reversão de políticas afirmativas, voltadas à redução de desigualdades materiais entre brancos e negros, equivale a uma brutal atuação estatal no sentido contrário.



Walfrido Warde

É advogado, escritor e presidente do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).

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