A Covid, o Bobo e o Perro Defunto – IREE

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A Covid, o Bobo e o Perro Defunto

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Tive covid, que derivou numa síndrome pós-covid, que derivou numa gripe meio constante. Nenhuma das etapas pode ser chamada de gripezinha, diga-se. E com 5 doses de vacina.

Mas isso me deixou com tempo livre. Tempo é fugidio. E de cama, e ler e ver youtube. Ok, poderia ir mais fundo e me embrenhar pelo TikTok, mas no meu estado de fraqueza não seria aconselhável. E caí de cara nos podcasts.

Como tem podcast nesse mundo, meu Deus! Os apresentadores vão uns nos programas dos outros, parece comércio de cidade pequena, onde um compra do vizinho e não sai disso. Podcast recebe TODO tipo de gente – e é apresentado por TODO tipo de gente. Tem com policial, de direita, humorista, de direita, jornalista, de direita,  apresentador sem especialidade nenhuma, de direita… E estes me fascinam. São gente boa, sempre de acordo com o que seu entrevistado disser. Não tem compromisso com a informação, apenas com o genteboísmo. Num desses, quilométrico (vi alguns cortes – e tem isso: da mesma forma que os passarinhos que vivem do que sobra dos dentes dos jacarés, tem gente que vive de usar o programa alheio), um debate entre criacionistas (acho que adeptos do design inteligente) e divulgadores científicos – sim, também tem disso no Youtube. Gente que tenta ensinar coisas. E, como também dependem de audiência, igualmente ferrenhos adeptos do genteboísmo.

Um dos pseudo-cientistas (que ficou zangado de ser chamado assim) defendeu a veracidade da Arca de Noé! E que nela havia dinossauros, também. E, claro, que o mundo tem apenas 6 mil e poucos anos. A explicação é que a Arca era enorme, Noé só levou filhotes e espécies básicas, que, quando saíram, se multiplicaram. Isso até que pode explicar muita coisa: o ornitorrinco, por exemplo: desconfio que este seria o resultado da promiscuidade reinante na Arca, com uma enorme confraternização entre espécies, e uma pata extremamente permissiva.

Ora, dar voz a esse tipo de gente não ajuda em NADA. Não digo que devêssemos proibir, sou contra a censura. Mas poderiam filtrar. Os divulgadores científicos deveriam ser os primeiros a não dar eco para essas criaturas – e, se derem, que não sejam tão passivos, que saiam com os metafóricos dois pés no peito metafórico deles. Lá pelas tantas, um dos divulgadores fez um micro-protesto contra a astrologia, deixando claro que sabia que perderia fãs, que poderia ser “cancelado”. Ora, astrologia é terraplanismo socialmente aceito. Que quem acredita jogue dinheiro fora, mas quando empresas decidem se contratam ou não baseado em mapas astrais, a coisa precisa ser combatida. Mas sou ariano, o que eu sei?

Esse longo intróito é apenas um desabafo. Cada vez mais as redes decidem nosso futuro, seria interessante que os influencers tivessem algum senso social. E os humoristas… Durante a ditadura o humor foi um desafogo. Na quase ditadura em que vivemos, nos últimos anos, tivemos humor isento – que sempre favorece o status quo – e humor a favor, aproveitando a figura ridícula do presidente. Humorista de direita é meio sem sentido, mas que seja; agora, humorista a favor de ditador não é humorista: é bobo da corte.

Mas precisamos falar da imprensa de novo. Lula foi à Arábia Saudita. Tem que ir, e pronto. Mas o O Globo manda essa:

“Assassinato de jornalistas, perseguição a mulheres, proibição de igrejas: conheça o ditador árabe com quem Lula se reunirá”.

Nada de errado objetivamente. Mas se compararmos com as manchetes do tempo de Bolsonaro, a coisa era mais ou menos “Bolsonaro se reunirá com príncipe saudita”, e sem destaque, algumas proezas do indigitado. Na Globonews, um filósofo nos informa que Flavio Dino – juiz federal concursado – NÃO TEM notório saber jurídico. E, maravilha das maravilhas, a imprensa dá destaque aos ataques dos jovens bolsonarinhos, que pedem a cabeça de Janones por causa de… Rachadinhas!

A imprensa, fundamental, muitas vezes nos dá esses presentes: uma total falta de compromisso com a neutralidade. Lembro de um comentarista esportivo, irritado por um jogador de seu time ter perdido um pênalti (dando uma paradinha), dizendo:

-Craque bate pênalti direto, não tem essa palhaçada de paradinha!

Bacana, não fosse a tal paradinha popularizada por um tal de Pelé. O ponto é esse: ninguém tem compromisso com nada, nem é cobrado pelo que diz. Seja em podcast, seja na grande imprensa.

Mudando de assunto, nossos hermanos capricharam: elegeram uma criatura que recebe conselhos de seu cão. Já seria inacreditável, mas piora: o cão está morto. Muito possivelmente ele seria pior sem os conselhos do Totó, mas não temos como saber. Depois de eleito, sossegou um pouco, mas precisaríamos de um híbrido de Dr Doolittle e Chico Xavier para tentar entender o que se passa na cabeça do Pibe Maluquito.

Dizem que a música favorita dos brasileiros é o tango, pois nele tem sempre um argentino sofrendo. Mas agora passou de qualquer limite, ninguém merece isso. Mesmo tendo escolhido.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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