A Copa e a teimosia de existir coletivamente – IREE

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A Copa e a teimosia de existir coletivamente

27 de maio de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Existe uma razão para a Copa do Mundo continuar mobilizando bilhões de pessoas em um planeta cada vez mais fragmentado, cansado e individualizado, e ela não tem nada a ver, propriamente, com futebol.

A Copa se transformou em uma das últimas experiências coletivas capazes de sobreviver ao desmonte emocional produzido pelo século XXI. Numa era em que quase tudo o que deveria nos unir foi convertido em mais um motivo de separação, a Copa insiste em produzir exatamente o oposto. Enquanto plataformas digitais reorganizam a vida pública em torno de bolhas algorítmicas, hiperpersonalização e conflito permanente, ela cria simultaneidade emocional, obriga desconhecidos a compartilharem o mesmo espaço simbólico e interrompe, ainda que temporariamente, a lógica da solidão organizada que domina a vida contemporânea.

 

 

O mundo atual funciona a partir da fragmentação. Cada indivíduo vive dentro de uma curadoria privada de informações, emoções e crenças cuidadosamente construída por plataformas que lucram com retenção, polarização e estímulo constante. Já não consumimos as mesmas referências culturais, não habitamos os mesmos espaços públicos e, frequentemente, nem interpretamos os acontecimentos a partir da mesma realidade factual. Pesquisas do Pew Research Center apontam crescimento contínuo da polarização política nas democracias ocidentais, enquanto relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde classificam solidão e isolamento social como desafios centrais de saúde pública global. O excesso de conexões digitais não produziu pertencimento coletivo, mas sociedades emocionalmente isoladas, hiperestimuladas e incapazes de construir experiências compartilhadas duradouras.

A Copa resiste justamente porque desafia essa lógica. No Brasil, essa dimensão é ainda mais profunda já que ano de Copa também é ano de eleição presidencial. Em 2022, a camisa da seleção brasileira foi sequestrada, não em campo, mas na política. Apoiadores de Bolsonaro transformaram o verde e amarelo em uniforme de movimento, símbolo de pertencimento ideológico e código de identificação partidária. O que deveria ser um dos maiores símbolos de união nacional passou a provocar desconforto em parte do país, inclusive em pessoas que amam futebol, cresceram cantando o hino e têm no Corinthians ou no Flamengo quase uma religião, mas que já não conseguiam vestir a camisa da seleção sem sentir que faziam uma declaração política involuntária. Essa foi uma das operações simbólicas mais violentas da polarização brasileira recente, porque transformar um símbolo coletivo em emblema de facção significa destruir um dos poucos espaços em que o país ainda conseguia se reconhecer como nação, imperfeita, contraditória, mas ainda nação.

Em 2026, essa disputa retorna com força total. A Copa acontecerá no meio de uma eleição que já se anuncia como mais uma batalha pelo sentido do Brasil. A questão não é apenas quem vai vencer o campeonato ou ocupar o Palácio do Planalto, mas se ainda existe algum símbolo coletivo capaz de sobreviver à lógica permanente da guerra cultural instalada no centro da vida pública brasileira.

E a Copa, mais uma vez, continua resistindo a isso. É aí que a teimosia do futebol deixa de ser apenas esportiva. Quando o Brasil entra em campo numa Copa do Mundo, algo difícil de explicar racionalmente acontece. O país para, e para junto. A pessoa que votou em um candidato e a que votou no outro assistem ao mesmo jogo, torcem pelo mesmo time e sofrem com o mesmo pênalti perdido. Por algumas horas, a lógica do antagonismo permanente que organiza a vida política brasileira é suspensa. Não resolvida, não curada, mas suspensa. E essa suspensão, por menor que pareça, possui enorme significado num país que desaprendeu a existir coletivamente sem transformar tudo em combate.

O futebol brasileiro também não é inocente, e reconhecer isso faz parte de qualquer análise honesta. Ele carrega racismo estrutural, elitização progressiva dos estádios, violência das torcidas organizadas e uma indústria que transforma jogadores em mercadoria e torcedores em consumidores. Talvez justamente por isso o que a Copa ainda produz tenha um nome tão preciso: teimosia. É a insistência coletiva em se emocionar junto mesmo sabendo que a estrutura ao redor é desigual, corrupta e excludente. E essa insistência, neste momento histórico, possui um valor que ultrapassa o esporte.

Existe ainda uma verdade que o futebol brasileiro torna impossível ignorar, a seleção que o país ama é, e sempre foi, profundamente mestiça, periférica e plural. Os maiores ídolos da história do futebol brasileiro vieram das margens, de famílias pobres, de cidades do interior e de periferias urbanas. O futebol brasileiro foi construído por pessoas que a sociedade historicamente tentou tornar invisíveis, e são exatamente essas pessoas que, a cada quatro anos, representam o país inteiro diante do mundo, numa contradição que o Brasil ainda não teve coragem de enfrentar fora dos estádios.

Nenhuma democracia sobrevive sustentada exclusivamente por ressentimento, antagonismo e isolamento emocional. Sociedades precisam preservar símbolos comuns, memórias coletivas e espaços capazes de produzir reconhecimento mútuo entre pessoas que discordam profundamente entre si. No Brasil, onde a polarização corroeu quase todos esses espaços, a Copa se transformou em algo raro e valioso, um momento em que o país ainda consegue sentir que existe como coletivo.

Esse ano a disputa pelos símbolos nacionais voltará a acontecer com intensidade máxima. A pergunta que permanece não é se o Brasil vai ganhar a Copa. A pergunta é se o Brasil ainda consegue torcer junto, e o que isso significa num ano em que voltaremos a decidir, mais uma vez, que país queremos ser.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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