A Constipação, a Anistia e o “Acidente” – IREE

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A Constipação, a Anistia e o “Acidente”

5 de maio de 2025

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



E tivemos mais uma prisão de ventre em rede nacional. 

Antigamente os pedintes mostravam suas chagas mode aumentar o valor das esmolas. Quanto mais feio, mais supurado, mais assustador, melhor. Alguns simulavam feridas, fingiam paralisias, tudo por um dinheirinho a mais. 

Agora a coisa mudou; o cidadão expõe as chagas, mas não na esquina: fica numa UTI mais movimentada que a Central do Brasil, e quando o médico vai mexer em algo, transmite em rede nacional – o bom doutor claramente gostando da festa. Misericordiosamente não mostram as enfermeiras limpando o peniquinho, mas deve ter sido gravado. É um entra e sai generalizado, todo mundo cuspindo bactérias em cima do quase falecido. E o coitadinho, com a expressão compungida, exibindo seu martírio em rede nacional. Tem melhoras súbitas, aí aparece em lives e entrevistas. 

E vendendo capacete, que ninguém é de ferro.

Tudo por uma anistiazinha. Tem gente que gosta de demonstrar força. Nosso capitão, não; ele gosta de demonstrar a maior pusilanimidade possível, fingindo que é um ser ridículo e abjeto. Tudo para enganar os detratores…

Os pessoais anda enchendo os pacová de todo mundo querendo essa anistia. Claro, todos preocupados com dona Maria, evangélica, 50 anos, que quebrou 3 vidraças no Supremo, ou com seu Natanael, espírita, 51 anos, que tentou dar uma paulada na cabeça de um policial. Dá vontade de sugerir: ok, a gente anistia todo mundo, mas dobra a pena dos líderes, ok? Certamente vão topar, pessoas cordatas que são.

Cordatos, mas se borrando de medo.

Se formos usar uma expressão antiga e démodé, nos dirigindo a esses chorões, diríamos: sejam machos! Hoje soa feio, né? Pois o que era apenas uma expressão machista antiga, de repente passou a ter um peso diferente: há cursos ensinando o indivíduo a ser um! 

E não se trata do método Bolsonaro: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele”.

Nada disso! Há cursos para homens, héteros, mas que precisam se contactar com sua masculinidade. Num deles vão 50 futuros machos subir um morro e passam o fim de semana juntinhos, acampando, suando juntos, dormindo juntos, fazendo atividades lúdicas e educativas. Pagam uma grana preta por isso, e não podem falar o que acontece por lá. É meio que nem Las Vegas, o que acontece em Vegas, fica em Vegas. 

O que acontece no matinho, fica no matinho.

Voltam cansados, suados e felizes. E mais machos que nunca.

Sempre fui crédulo. Nunca urinei numa piscina por acreditar que nela havia um produto químico que deixaria a água vermelha à volta do mijão. Na verdade, ainda acredito. 

Também sempre acreditei que se pisasse na areia movediça seria o fim dos meus dias, aquilo me arrastaria para o centro da Terra. Na verdade, ainda acredito. 

Ah, e sempre acreditei que se engolisse um chiclete ele ia ficar no meu estômago para sempre. Na verdade, ainda acredito. 

E sempre acreditei que, no fim, a justiça vence. Os maus são punidos, os bons, recompensados.

Até que Alexandre de Moraes resolve prender o Collor em casa. Se ele fosse preto, pobre e feio – perdão, feio ele é – teria essa mamata? 

Na verdade, não acredito.

Os bolsominions bradaram quando foi dada a ordem de prisão; babaram quando ele foi preso em Alagoas, chamaram de crueldade – até que divulgaram o vídeo em que ele mesmo dizia querer ficar preso lá. Ignoraram o fato dele dizer que tem a saúde perfeita, que não toma nenhum remédio. E não agradeceram quando ele foi solto. É uma gente ingrata. 

Tenho tido algum contato com essa gente. Tenho me dedicado a tentar, carinhosamente, salvar algumas pessoas que me foram queridas. Mas é inútil, parece um vírus. Gente que ensina os filhos a não mentir ignoram os fatos e mentem descaradamente. Reclamam da ditadura do judiciário xingando o Supremo. Essa gente não sabe o que é ditadura.

Estava pensando nisso quando esbarrei com Juscelino Kubitschek de Oliveira na seção de queijos do supermercado. Simpático, me cumprimentou efusivamente, perguntou pela minha família, pelos meus vizinhos, meus antepassados, um monstro de gentileza. Quando parou para respirar, perguntei-lhe o que achava da anistia. Ele cofiou uma barba imaginária, e rememorou:

-No meu governo houve uma tentativa de golpe. Não sou de guardar rancor, anistiei todo mundo. Tentaram de novo, e novamente não foram punidos. Em 64, os mesmos sujeitos conseguiram. E me cassaram.

-Então, e a anistia hoje?

-Meu filho, você tem ideia de como eu morri? Se eu não tivesse sido um coió soltando esses canalhas teria durado BEM mais…



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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