29 de julho de 2026
A condição humana é terrível? Essa pergunta há algum tempo ganhou espaço nas minhas reflexões. É lugar-comum afirmar que a única certeza da existência é a morte. Ou seja, ganhamos a vida, com a condição de um dia a devolvermos. Mesmo assim, tantas e tantas obras, músicas, peças de teatro foram escritas ao sabor de pensar a existência e o seu fim. Como brilhantemente Ferreira Gullar traduziu na célebre frase: a arte existe porque a vida não basta.
Por meio da arte buscamos sublimar essa condição.
Rubem Alves, em seu último livro, pouco antes de seu falecimento, intitulado Variações sobre o Prazer, escreveu: “Não sei se foi a velhice que abriu meus olhos ou se ela, a velhice, simplesmente me deu coragem para dizer o que eu sempre vira e não dissera por medo”¹, e seguiu: “Na velhice, o medo se vai porque não se tem mais nada a perder. A proximidade da morte nos dá um atributo dos Deuses: nada de mais terrível nos pode ser feito.”, e finaliza: “A proximidade da morte tem um efeito sapencial: ela nos abre os olhos para perceber o essencial. Há uma lucidez que só acontece quando a vela se apaga: ‘Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer’ disse Fernando Pessoa.”²
Também em seu último livro, escrito coincidentemente poucos meses antes de sua morte, Clarice Lispector, ao contar a história de vida de Macabéa, termina o livro com a morte da personagem: “Morreu em um instante. O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e toca de novo. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada. Eu vos pergunto: Qual é o peso da luz? E agora? – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – Mas eu também? Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.”³
Na distância entre o instante da vida e o instante da morte, está a nossa existência. Como escreveu Rosa Montero: “A vida é um pequeno espaço de luz entre duas saudades: a do que você ainda não viveu e a do que não poderá viver mais.” 4
É essa a nossa condição humana, é esse o estado, a regra, a certeza que permeia todos nós, sem exceção. Parece simples, mas esconde o segredo da existência humana (ou, o mistério da fé): a ideia de que um dia tudo acaba. E sejamos claros, não é o mundo que acaba, somos nós que, um dia, acabamos para o mundo.
E, se possível, sejamos ainda mais claros: ninguém sabe que dia será esse, ninguém sabe como isso pode acontecer. Em um almoço de domingo, um engasgo pode ser fatal, na volta do trabalho, um galho de árvore pode cair e trazer junto o juízo final, um câncer terminal pode ser descoberto, um infarto fulminante pode paralisar o coração… Todas essas situações podem acontecer com todos nós, de um dia para a noite, sem aviso, sem preparação e pronto, eis a nossa condição!
Quão dolorosa é a consciência da nossa finitude? Será que, de fato, um dia alcançamos a ideia de que tudo irá acabar, mesmo antes do dia final? Talvez, o mais próximo que chegamos desse sentimento, seja quando vemos pessoas que amamos partirem, sem mais nem menos, sem aviso, num dia qualquer e, algo dentro de nós, grita e nos recorda que essa é a (terrível) condição de todos nós.
Não existirá choro nem vela. Somos impotentes diante da nossa existência e, mais ainda, da existência dos outros. Para essa segunda, Drummond lindamente traduziu a angústia: “Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar, porque depois dele não há nada?” 5
A religião, em muitos momentos, pode apaziguar a ideia dessa condição, com a possibilidade de uma vida eterna, da reencarnação, do reencontro divino, de outros mundos, do céu e do inferno. Mas, trata-se, sempre e tão somente, de um exercício de fé.
Volto, então, à questão inicial. Sem dúvida, não só é terrível a condição humana, como é inevitável, pois é, por óbvio, condição da existência. E o que fazemos com isso? Nada. Como bem explicou Saramago em seu As Intermitências da morte: “É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra” 6.
* Esse artigo é uma homenagem ao meu querido, amado e eterno Padrinho Abrahão Lorenzon Filho.
[1] Variações sobre o Prazer, Rubem Alves. Editora Planeta, 1ª Reimpressão, Pg. 47.
[2]Variações sobre o Prazer, Rubem Alves. Editora Planeta, 1ª Reimpressão, Pg. 56.
[3] A hora da Estrela, Clarice Lispector. Editora: Record, Pg. 111/112.
[4] A carne, Rosa Montero. Editora: Todavia. 1.ed, Pg. 7.
[5] Poema: “A um ausente”, Carlos Drummond de Andrade.
[6] As Intermitências da Morte, José Saramago. Editora: Companhia das Letras, Pg. 38
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Mariana Delgado Britez Rigacci
É advogada e mestre em Direito pela UNESP na área de Direito Penal e Política Criminal. Atuou como pesquisadora no Projeto "Mobilização do Direito como resposta à precarização do Trabalho: análise da experiência brasileira na década de 2010", na qual foi bolsista CNPQ. Foi coordenadora do Grupo de Extensão "O exercício da cidadania no acesso à jurisdição", na UNESP.
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