A carga mental da mulher invisível – IREE

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A carga mental da mulher invisível

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



A carga mental refere-se ao peso psicológico e emocional associado às responsabilidades e tarefas, que geralmente recaem sobre uma pessoa. No contexto das mulheres, na maioria das vezes se refere à sobrecarga de responsabilidades domésticas, cuidados familiares, trabalho emocional e outras obrigações não remuneradas que podem ser socialmente esperadas delas, pelo simples fato de serem mulheres.

O ônus de administrar, não apenas as tarefas rotineiras diárias, mas também de lembrar de prazos, planejar compromissos familiares, cuidar das necessidades emocionais dos membros da família e equilibrar essas demandas com responsabilidades profissionais ou de carreira podem resultar em estresse, exaustão emocional e afetar negativamente a sua saúde.

Muito tem se falado sobre o trabalho invisível da mulher que se manifesta nas tarefas domésticas rotineiras – a limpeza meticulosa, a organização do lar, a preparação de refeições saudáveis – bem como na gestão dos cuidados familiares, porém, além da necessidade de se falar da falta de remuneração que a mulher invisível sofre temos que discutir mais sobre a dimensão emocional desse trabalho: espera-se que a mulher invisível mantenha a estabilidade emocional da família, atuando como pilares de apoio em tempos de crise, sem muitas vezes pensarmos em suas necessidades.

É evidente que o peso dessa carga não remunerada é agravado pela falta de reconhecimento social e valorização dessas contribuições que são o nosso alicerce. Esse desequilíbrio contribuí para exaustão, estresse crônico e para o impacto mental na saúde das mulheres. Além da constante pressão para se atender às expectativas sociais tradicionais.

Dessa forma, o principal resultado que temos diante da carga mental das mulheres é o seu sofrimento psíquico e infelizmente isso é construído e estimulado desde a infância, com as meninas sendo estimuladas a terem papéis essenciais para a estrutura familiar nas brincadeiras enquanto os meninos não. Importante ainda lembrarmos que são as mulheres as responsáveis por aquilo que consideramos a Economia do Cuidado e, como raramente são remuneradas por isso, conforme mostra o estudo da ONG Oxfam, temos como principal resultado uma desigualdade absurda entre os sexos.

Recentemente, em uma decisão importantíssima, a Argentina reconheceu que o cuidado materno de mulheres do lar pode ser somado ao tempo de trabalho no cálculo da aposentadoria, já que essas mulheres foram impedidas de alguma forma de ingressar no mercado de trabalho, então nada mais justo que haja uma compensação dentro dessa estrutura patriarcal.

Já passou da hora de darmos visibilidade ao invisível e reconhecer o trabalho incansável dessas mulheres a fim de que criemos uma sociedade mais equitativa. É preciso reconhecer, valorizar e redistribuir essas responsabilidades de maneira mais equitativa. Educar para a conscientização sobre essa carga invisível é crucial. Não se trata apenas de dividir as tarefas de maneira mais equilibrada, mas também de valorizar o trabalho emocional e cognitivo realizado pelas mulheres.

Políticas que promovam a igualdade de gênero no local de trabalho, além de oferecer suporte e infraestrutura para permitir a já mencionada redistribuição de responsabilidades, são fundamentais para aliviar essa carga. A mudança requer uma abordagem cultural e estrutural. Ao reconhecer e dar visibilidade ao trabalho invisível das mulheres, podemos começar a construir uma sociedade mais justa e equitativa, na qual o valor do trabalho, seja ele visível ou invisível, seja reconhecido e valorizado independentemente do gênero.

Também é crucial que desafiemos os papéis tradicionais de gênero que colocam a maior parte do trabalho de cuidado sobre as mulheres. Uma abordagem mais equitativa envolve encorajar todos os membros da família a compartilhar igualmente as tarefas domésticas e de cuidado. Isso não só alivia a carga das mulheres, mas também permite que os homens se envolvam mais ativamente na vida familiar.

Alcançar maior equidade nos cuidados não é apenas uma questão de justiça social, mas também traz benefícios tangíveis para a sociedade como um todo. Isso permite que as mulheres tenham mais oportunidades profissionais, fortalece os laços familiares e cria um ambiente mais saudável e equilibrado para todos e todas.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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