A bola rola, o jogo não: a vergonha de Gijón no futebol brasileiro – IREE

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A bola rola, o jogo não: a vergonha de Gijón no futebol brasileiro

23 de julho de 2026

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Em 25 de junho de 1982, o estádio El Molinón, em Gijón, na Espanha, recebeu uma das cenas mais constrangedoras da história das Copas do Mundo. Alemanha Ocidental e Áustria sabiam exatamente do que precisavam: um placar de 1 a 0 ou 2 a 1 para os alemães classificaria as duas seleções às custas da Argélia, que “chocou” o mundo ao vencer os próprios alemães na estreia, ameaçando fazer história como a primeira seleção africana a avançar em uma Copa.

A Alemanha abriu o placar nos primeiros dez minutos do jogo, e então o futebol simplesmente parou. Os jogadores passaram os oitenta minutos seguintes trocando passes, sem a menor intenção de atacar ou defender. A torcida vaiou, acenou notas de dinheiro para os jogadores em protesto, e comentaristas chegaram a sugerir, ao vivo, que os telespectadores desligassem os aparelhos. A imprensa batizou o episódio de “Vergonha de Gijón”.

Gijón se repete jogo após jogo nos gramados brasileiros, sem precisar de acordo nenhum nos bastidores. Times que trocam quarenta, cinquenta passes dentro do próprio campo de defesa, que fazem o goleiro rolar a bola para o zagueiro, que devolvem para o lateral, que buscam o volante, que voltam para o goleiro de novo… a posse de bola deixou de ser meio para virar fim. Controlar o jogo, hoje, muitas vezes significa evitar o jogo.

 

E há um detalhe que torna essa vergonha ainda mais difícil de perdoar do que a de Gijón: lá, pelo menos, o cálculo funcionou. Alemanha e Áustria conseguiram exatamente o que buscavam, avançaram e cumpriram o combinado cínico até o fim. Aqui, muitas vezes, não. E por quê? Em parte, por importação mal digerida, “dinizismos”. O Brasil trouxe o vocabulário da construção pelo goleiro, saída curta, ocupação racional dos espaços, uma selvageria de passes errados, atacantes tornando-se zagueiros…

Técnicos vivem sob contratos curtos, cobrança alta e imediata, redes sociais implacáveis; o caminho de menor risco pessoal não é arriscar a jogada de efeito, é blindar-se atrás de uma posse de bola que, no pós-jogo, permite dizer “dominamos a partida” mesmo quando a partida terminou em nada, ou até em derrota do time que mais teve a posse de bola, o que não é incomum. Melhor isso do que ter que explicar para a imprensa um drible que deu errado na intermediária.

Aliás, o drible desconcertante, a jogada de (causa e) efeito, o passe correto foram, aos poucos, substituídos por um manual de segurança. Um time com pavor de perder a bola é, na prática, um time com pavor de vencer, porque vencer exige risco, e risco é exatamente o que esse estilo tenta eliminar da equação, inclusive na cabeça de quem ainda está aprendendo a jogar. O resultado é uma geração de jogadores tecnicamente competentes e emocionalmente treinados para temer o próprio talento. Não é falta de talento. O Brasil continua exportando jogadores de altíssimo nível para o mundo inteiro. É a “escolha” sistemática, repetida, institucionalizada de um modo de futebol.

Driblar era sobrevivência social. Não é coincidência que os dribladores geniais que o Brasil ainda produz, hoje, muitas vezes precisem florescer fora do sistema oficial de formação, quase apesar dele, e não graças a ele. As arquibancadas sentem, e o torcedor aplaude por educação. Ninguém mais precisa acenar notas de dinheiro para protestar. O torcedor brasileiro já pagou o ingresso, sentou na arquibancada e, calado, aceitou que aquilo que assiste diante de si é uma longa (e vergonhosa) partida de Gijón.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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