470 anos de São Paulo: para sonharmos um projeto de cidade – IREE

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470 anos de São Paulo: para sonharmos um projeto de cidade

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Entre memórias, passagens e ruínas, São Paulo comemora seus 470 anos.

O aniversário de um lugar é também uma oportunidade para escavar a memória política do que constitui sua história: processos urbanos, subjetividades, arquitetura, relações que são incorporadas e forjam uma identidade. Andando pela cidade podemos reconhecer as dobras das épocas, formas de pensamento e modos diversos de viver. Em cada canto da multiétnica e plural megalópole, pulsam nuances de presenças de múltiplas cidades dentro de uma fascinante São Paulo, que sempre surpreende e se revela como abertura ao desconhecido e indizível que não cabe no turbilhão de um cotidiano intenso.

No dia do aniversário de São Paulo fui ao Parque Ibirapuera – um dos locais mais amados e frequentados da cidade, construído em uma área que, na época da colonização, abrigava uma aldeia indígena. Dentre dezenas e variadas atrações, escolhi o Museu Afro Brasil, que leva o nome do escultor baiano Emanoel Araujo. Além de um deslumbrante e extraordinário acervo com obras do século XVIII a artistas contemporâneos, o museu também abriga mostras temporárias e, neste dia, achei oportuno visitar “Na raiz do tempo, a matriz da cor”, exposição de Sergio Lucena, um artista nordestino que, em uma condensação do que afirma o escritor espanhol Enrique Vila-Matas – “saltar no vazio não é um ato exatamente sereno” – fixou vida e trabalho em São Paulo, cidade em que, na dissipação de um imaginário, encontrou espaço para cravar algo de sua origem e singularidade.

“Na raiz do tempo, a matriz da cor” segue até 3 de março no Ibirapuera – parque-símbolo de São Paulo, pulmão da cidade erguido sobre terras indígenas, em um museu que abriga e celebra a história negra. Com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, a exposição celebra a trajetória de 40 anos de um nordestino radicado na grande cidade sudestina, cuja monumentalidade o fascinou e, ao mesmo tempo, permitiu que estivesse em contato sensível e afetivo com a infância, abrigando o que apenas na aparência é irreconciliável: do alto de uma pedra, no sertão paraibano, o menino avistava um mundo cromático e, agora, o artista inventa mundos pictóricos – “campos de luz”, no dizer do curador – ancorando no espaço, com rigor e leveza, o insondável de uma vida, com referências do candomblé e da umbanda e de tantas outras histórias indígenas e nordestinas.

A trajetória de Sergio Lucena se equipara a de muitos outros brasileiros que reinventaram a vida em São Paulo. O campo de luz revelado pelo artista ilumina as histórias de gente que, ao estabelecer linhas de fuga e nelas incluir as ambivalências da cidade, sustenta a própria existência como intervenção crítica e política. São pessoas que, todos os dias, inventam a cidade e fazem lembrar que “a cidade é uma casa e a casa é uma cidade”, um topos que embaralha as ideias de aldeia e cidade e convoca os moradores a sustentar o imprevisto, como equilibristas na corda bamba.

Do interior da zona da mata mineira, onde sonhava a metrópole, também escolhi São Paulo, onde encontrei um caldeirão denso de singularidades, que muito abriga da minha relação com a arte, cultura, psicanálise, cinema e literatura. Como na canção de Caetano Veloso, “quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da poesia concreta de tuas esquinas”. A própria dureza incrustada na poesia dos dias me ensinou sobre a rara beleza que passa pelos vínculos sociais e díspares lugares de enunciação.

Walter Benjamin, pensador das imagens urbanas, foi um crítico do progresso e São Paulo é, definitivamente, uma cidade que abriga todas as contradições do progresso. Anselm Kiefer – artista alemão que esteve no Brasil em 1987, por ocasião da 19ª Bienal de São Paulo – ao observar a cidade do alto do Edifício Copan – outro ícone paulistano – disse ter se sentido profundamente marcado pelo impacto visual causado pelo caos da metrópole. Através de registros fotográficos, produziu uma série de obras. As vistas aéreas, usadas como elemento propulsor, acabaram por incorporar imagens baseadas em Lilith – figura mitológica, primeira mulher de Adão, símbolo de insubmissão que não aceitou a dominação do companheiro e, por isto, abandonou o Jardim do Éden, sendo considerada protetora e representação das cidades desertas e em ruínas. A série de Kiefer escava na imagem um passado mítico inscrito no presente, e abriga discussões sobre questões contemporâneas primordiais. Seu gesto artístico é uma abertura para a continuidade da história e à uma revisão crítica que nos arremessa ao futuro: qual cidade desejamos construir, a partir das ruínas?

Em “Louvor da sombra” o escritor japonês Junichiro Tanizaki afirma: “Da mesma maneira que uma gema fosforescente brilha no escuro mas perde o encanto quando exposta à luz solar, creio que a beleza inexiste sem a sombra“.

A arte, a poesia, os gestos que acolhem a diversidade dos modos de existência e que acontecem apenas no singular e intransferível, essa matéria sensível e humana que cria e proporciona a vida e as relações e é, também, ruína e sonho, é celebrada e nos recorda do trabalho coletivo que temos a realizar.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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