2 de outubro: ocupar as ruas e derrotar o fascismo – IREE

Colunistas

2 de outubro: ocupar as ruas e derrotar o fascismo

Yuri Silva

Yuri Silva
Coordenador de Direitos Humanos do IREE



Na tarefa de analisar a conjuntura e contextualizar a construção das manifestações do dia 2 de outubro pelo nosso campo político (centro-esquerda, esquerda e esquerda radical), é importante historicizar os motivos que nos trouxeram até aqui, para só depois chegar até uma análise sobre o papel histórico que temos.

Nós enfrentamos, na conjuntura atual, um profundo esgarçamento das instituições republicanas, que sofrem ataques constantes do presidente da República, Jair Bolsonaro, com seu tom ameaçador, que coloca em risco a estabilidade democrática brasileira, conquistada com a promulgação da Constituição Federal de 1988, e também arrisca as garantias democráticas e o Estado de Direito, assentados sobre as letras da nossa Carta Magna.

Os ataques às instituições pelo bolsonarismo se dão de diversas formas, com violências de dimensões e intensidades variadas. Dá-se por meio do Gabinete do Ódio, que ataca deliberadamente ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou pelas próprias ameaças diretas às instituições e não somente aos seus representantes – como, por exemplo, quando insinua-se ou afirma-se em falas de asseclas do presidente, inclusive dos seus filhos parlamentares, o desejo de fechamento da Suprema Corte.

Dá-se também nas interferências no Congresso Nacional e nas ameaças enviadas à Câmara dos Deputados e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre as eleições e o voto impresso, insinuando a possibilidade de não se obedecer o resultado das eleições presidenciais de 2022.

A militarização do governo e da sociedade e a reivindicação dos signos e símbolos da Ditadura Militar como tradução política desse campo, mas sobretudo a galvanização das forças militares policiais nos Estados, contribuem para esse cenário, pois deixa em suspenso uma eventual explosão de um rastro pólvora, de forma coordenada, por todo o Brasil, o que teria o potencial de incendiar a nação em atos violentos civis-militares.

Foram sob essas bases de ameaças concretas do projeto fascista de extrema-direita à democracia – e também diante de todas as práticas negacionistas que resultaram em centenas de milhares de mortos durante a pandemia da Covid-19, mortes absolutamente evitáveis – que nós começamos a mobilizar, desde maio, manifestações de rua contra o presidente Jair Bolsonaro.

As manifestações de rua da esquerda

Essas foram manifestações absolutamente bem-sucedidas, com a reprodução em centenas de cidades do Brasil, oportunidades nas quais conseguimos mostrar a força de mobilização do nosso campo. Isso deu-se mesmo diante de uma pandemia que, àquela altura, dava sinais de arrefecimento, contudo ainda impunha muito medo às pessoas. As mortes e hospitalizações ainda preocupavam e a vacinação tropeçava, caminhava em passos lentos e tortuosos, incertos.

Nesses atos houve, em certa medida, uma ampliação da participação de setores da classe média que são ideologicamente alinhados conosco e até de uma classe média mais ao centro – principalmente porque, em dado momento, também estouraram as denúncias de corrupção envolvendo a compra de vacinas pelo Governo Federal, a CPI da COVID no Senado alcançava massivamente as pessoas, ocupando até o espaço deixado pelos ‘realities shows’, com acompanhamento praticamente em tempo real nas redes sociais e na imprensa, de forma espetacularizada…

Todos esses elementos foram contribuindo para que os atos aumentassem de tamanho.

Contudo, essa ampliação aconteceu de forma limitada, sem um esforço de mais diversificação por parte do nosso campo político e também por inércia da direita, que vacilava na dúvida de entrar ou não na luta pelo impeachment do Bolsonaro, fazendo cálculos exclusivamente eleitorais.

Essa limitação, que não foi alvo de reflexão e de tentativas de correção até então, acabaram provocando um refluxo dos atos e, é possível afirmar, da própria luta pelo impeachment.

O campo à esquerda foi fazendo atos cada vez mais esvaziados, ao mesmo tempo que a retórica golpista do fascismo crescia, engrossava o tom, mobilizava sua base social e alcançava um volume barulhento. Base social essa, é bom frisar, que não é pequena, desprezível e tampouco é inteiramente fascista, pois foi beneficiada pelos governos progressistas e tiveram, até algum momento, identificação com o projeto dos governos petistas.

Nesse sentido, chegaram as tão faladas manifestações do 7 de setembro, que pronunciavam uma tentativa de golpe organizado pela base mais radicalizada do presidente da República e a ida de um contingente enorme de pessoas na rua para defender Bolsonaro e suas ideias: intervenção militar, fechamento do STF, Tribunal Constitucional Militar, criminalização do comunismo etc.

Esse foi um episódio vitorioso (embora haja divergências sobre isso) do bolsonarismo, que lotou Brasília e a Avenida Paulista, muito embora tivessem expectativas maiores de público, e serviu como oportunidade ideal para que o presidente mais uma vez avançasse sobre as instituições democráticas e as coagisse, ameaçasse, promovesse achaques.

Noutro giro, a esquerda se apresentou reticente em mobilizar para o dia 7 de setembro, com medo de possíveis confrontos – o que, embora seja uma preocupação plausível e responsável, mostrou-se completamente descolada da realidade nas ruas na prática.

Diversos movimentos e partidos do nosso campo popular apenas “cumpriram tabela” naquele dia, o que entregou a narrativa nas mãos de Bolsonaro e deixou com que ele surfasse praticamente sozinho. Mais que isso: entregou a ele as ruas, espaço historicamente ocupado por nós. Com isso, protagonizamos uma mobilização pequena em vários estados do Brasil onde houveram atos, inclusive em São Paulo, muito menor do que poderia ser caso colocássemos força total. E, caso assim fizéssemos, não haveria, pelo menos aparentemente, grandes intercorrências, como confrontos físicos entre militantes dos dois lados, como se supunha no nosso campo.

O dia 12, o recuo tático do fascismo e o erro do MBL

O tom que Bolsonaro utilizou no dia 7, contudo, atravessou o rubicão. As instituições, que até então atuavam timidamente em contê-lo, organizaram respostas à altura e a vitória das ruas obtida por ele começou a se reverter em derrota política. Aqueles que não enfrentavam seu projeto por ter alinhamento às ideias liberais e à agenda de desmonte do Estado empreendida por Bolsonaro e Paulo Guedes também reagiram às ameaças, que geram instabilidade e não interessam ao mercado.

A resposta das autoridades públicas, dos presidentes das Casas do Poder Legislativo, a carta lida pelo ministro Luiz Fux na sessão do STF do dia seguinte, tudo isso começou a colocar Bolsonaro novamente nas cordas e a fazer a possibilidade do impeachment ou de outra forma de derrubada do governo – cassação da chapa, condenação em âmbito internacional e outras – crescer vertiginosamente nas apostas políticas.

A direita, que hesitava em se posicionar, tornou-se imediatamente anti bolsonarista, enxergando a possibilidade de consolidação da tão famigerada ‘terceira via’ e, como aventavam fazer há alguns meses, começaram a mobilizar para o ato do MBL (Movimento Brasil Livre), que estava até então de forma solitária puxando a ida às ruas no dia 12.

Isso exigiu do bolsonarismo um importante recuo tático, um recuo tático que é decisivo nessa conjuntura e que o timing dos atos do dia 12 acabava sendo perfeito para que as forças pró-impeachment alavancassem a campanha pela queda do governo.

Esse momento foi sucedido, no entanto, por uma série de erros do MBL, que acabaram por isolar o ato do dia 12, transformando-o numa manifestação pública de um pequeno grupo sem relevância popular.

A opção inicial pelo ‘Nem Lula nem Bolsonaro’, frase que tentava emular o desejo da direita e da centro-direita por uma terceira via, e o próprio uso da imagem do ex-ministro e ex-juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, em materiais gráficos contribuíram para isolar o ato.

Isso gerou uma derrota para todos aqueles que defendiam uma unificação dos campos mais amplos que combatem o Governo Bolsonaro, porque gerou restrições incontornáveis para a esquerda participar da construção dessa unidade antifascista tão necessária na conjuntura atual.

O recuo feito pelo MBL depois, retirando esses elementos da estética e da narrativa do ato, até mostrou uma certa maturidade deles em entender o problema da primeira narrativa que apostaram, mas já não foi capaz de reverter a situação. Não tinha mais timing. A esquerda já estava limitada na construção, sem compor a direção daquele ato e sem nenhum tempo para poder dialogar com sua base sobre a necessidade da unidade.

O que vimos, como resultado dessa equação difícil, foram atos completamente fracassados no dia 12 de setembro, mas que tiveram participação de figuras nacionais importantes (Dória, Ciro Gomes, Alessandro Vieira, Isa Pena, Tabata Amaral, Mandetta e outros).

Atos que, sobretudo, ajudaram a jogar água na fervura que queimava Bolsonaro naquele momento.

Dois dias antes, o episódio da carta do presidente defendendo a moderação no diálogo entre as instituições, carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer, já havia ocorrido. E uma série de recomposições institucionais e políticas já estavam em curso, com direito até a ligação do Bolsonaro para o Ministro Alexandre de Morais.

Ou seja, havia um recuo tático em curso, de Bolsonaro cedendo a uma burguesia cosmopolita e anti-golpe, que acabou sendo fortalecido pelos atos fracassados do dia 12.

Isso demonstrou também, porém, a força da esquerda. Mostrou que qualquer ato unificado que ocorra daqui em diante deve ter a nossa participação, mas sobretudo a nossa direção. E que, embora as ruas sejam de quem as ocupa, a força política que mais mobiliza no combate ao fascismo é a nossa e nenhuma mais.

É contraproducente, agora, qualquer discussão sobre ter sido um acerto ou um erro a nossa não adesão ao ato do dia 12 de setembro. O erro deve ser atribuído ao MBL, que não mostrou leitura de conjuntura adequada e capacidade de unificação.

O que fica disso tudo é o nosso papel dirigente nessa luta pelo impeachment do Bolsonaro, que significará a derrota do projeto ultraneoliberal e fascista que ele empreende sem limites.

As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e a campanha Fora Bolsonaro entenderam esse papel quando aceitaram dialogar e construir, com base nos parâmetros que nos inclui (que é o parâmetro da defesa da democracia e das instituições republicanas e democráticas), os atos do dia 2 de outubro e os outros que virão em seguida e estão em discussão. Atos de caráter amplo, diverso, com unidade no objetivo de derrotar o fascismo.

É óbvio que há diferenças históricas entre a direita, a centro-direita, o centro e o nosso campo político, que vai da centro-esquerda à esquerda radical. Mas neste momento é indispensável a unidade nessa pauta comum. É vital. Disso depende a nossa existência, a nossa vida.

Para quem tem dúvidas, recomendo que voltemos aos escritos das referências políticas revolucionárias que nós (dos mais moderados aos mais radicais) reivindicamos, que retornemos às defesas que foram feitas pelos representantes dessas tradições políticas que dizemos seguir,

E entendamos o que eles e elas dizem sobre a tática a ser adotada no enfrentamento ao fascismo, com quem devemos caminhar quando a tarefa é derrotar a extrema-direita fascista, ao longo de toda a história.

Todos e todas vão falar de unidade na ação, mesmo com as diferenças de projetos alternativos ao fascismo.

Diante disto, alguns elementos são importantes para demarcar essa construção e importância de nos somarmos nessa unidade.

O primeiro é que o recuo tático do bolsonarismo abre uma oportunidade que não podemos perder, que é a oportunidade de encurralar o governo.

O recuo cria um ambiente favorável para que as manifestações cresçam, a mobilização se amplie e levemos cada vez mais pessoas às ruas.

Além do racha na direita, que coloca uma parte deles na rua ao nosso lado, há uma profunda crise interna no bolsonarismo por causa desse recuo, uma decepção daqueles que esperavam que o presidente levasse adiante, levasse às consequências mais desastrosas, os seus intentos e arroubos autoritários.

Além disso, a crise do governo se acentuou profundamente nesse tempo, com o aumento da fome, da miséria, da carestia e do desemprego.

Acentuou-se com a crise hídrica e energética e o aumento do preço da energia, que já começa a atingir a população também com apagões regionais, com riscos de apagões nacionais ainda em 2021.

Com a hiperinflação que volta a assombrar os brasileiros depois de tantas décadas.

Com o aumento da violência, da sensação de destruição do país, de piora da qualidade de vida do povo brasileiro, do desmonte total do estado de bem-estar social que foi conquista dos governos progressistas do PT.

E também com os escândalos de corrupção que assolam o governo e a família Bolsonaro: a rachadinha nos mandatos do presidente enquanto parlamentar e nos gabinetes dos filhos dele, o caso de superfaturamento de vacinas, mas, principalmente agora, o caso da Prevent Senior, que é de uma brutalidade e desumanidade assustadora, um dos maiores escândalos médicos da história…

Escândalo que provocou a morte de milhares de pessoas devido a uma aplicação de um tratamento precoce comprovadamente ineficaz e que era defendido pelo presidente da República. Mortes que foram adulteradas para não serem atribuídas à Covid-19, tudo dentro de uma suposta pesquisa de eficácia desses medicamentos reprovados pela ciência, com direito a protocolos criminosos de saúde.

A força e o papel histórico da esquerda e do PSOL no combate ao fascismo

Nesse sentido, no dia 2 nós temos a responsabilidade de ir além da defesa da democracia e das instituições, que é a pauta que unificou os mais diversos campos políticos nos atos.

Temos que ir às ruas, mobilizar cada amigo, parente e conhecido com o discurso e a narrativa da defesa da vida, que também é uma pauta que tem sido capaz de unificar a amplitude de campos que vão às ruas no dia 2.

Mas, sobretudo, é uma narrativa/discurso que dialoga com as pessoas comuns, com os trabalhadores, com a classe média e até com setores religiosos.

Até lá, teremos chegado a 600 mil mortes por Covid no Brasil, em meio a todos esses elementos que acabei de trazer.

Temos que fazer uma manifestação que dê cara aos mortos pela Covid, que tire a tragédia humanitária que vivemos do lugar da ‘normalização’.

É fato que estamos retomando ao normal, que temos retomado as atividades, mas estaremos nas ruas para derrubar um presidente que matou 600 mil pessoas. Um assassino.

É nessa linha que nós nos diferenciamos das forças que fingem querer o impeachment, mas, de fato, nos bastidores, não querem, não trabalham por ele.

Desde o começo dessa luta, o PSOL teve um papel fundamental na luta pelo impeachment. Optou pela rua e pelo enfrentamento desde sempre..

Fomos a força que de fato colocou peso nessa luta, com a atuação dos nossos parlamentares, dos nossos militantes, dos movimentos sociais que atuam em relação com o partido, na atuação guerreira do MTST…

Temos agora que reafirmar o nosso papel, papel diferente do que o PT resolveu exercer, por exemplo, por preferir enfrentar o bolsonarismo nas eleições de 2022.

Embora defendamos também a unidade de esquerda para derrotar o bolsonarismo nas Eleições 2022, é preciso fazer a crítica e é preciso que a gente se diferencie nesse ponto.

Não vamos nos confundir com quem subestima o fascismo, nem na centro-esquerda (por interesses eleitorais irresponsáveis) nem na esquerda radical (por mera demarcação de espaço e incapacidade de construir a unidade necessária).

Será preciso ter maturidade, tapar o nariz, ingerir uma dieta a base de sapos, e entender o nosso papel histórico nessa luta. Será preciso conviver nas ruas com a direita, de forma civilizada, sem vaias, sem enfrentamentos ou hostilidade, mas sempre destacando que temos projeto político alternativo para o fascismo, para o ultra neoliberalismo.

E que esse projeto político alternativo que apresentaremos lá na frente, após derrotar o bolsonarismo, não é austericída, não é liberal, mas sim em defesa de direitos para o povo, de combate à fome, de combate às desigualdades abissais que estruturam a nossa sociedade.

Democracia, vida e direitos!

É por isso que vamos às ruas no dia 2!



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Yuri Silva

É Coordenador de Direitos Humanos do IREE. Jornalista formado pelo Centro Universitário Jorge Amado, é coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), editor-chefe do portal Mídia 4P – Carta Capital, e consultor na área de comunicação, política e eleições. Colaborou com veículos como o jornal Estadão, o site The Intercept Brasil, a revista Piauí e jornal A Tarde, de Salvador. Especializou-se na cobertura dos poderes Executivo e Legislativo e em pautas relacionadas à questão racial na sociedade de forma geral e na política.

Leia também