1º de Maio, Dia dos Trabalhadores: de 1886 a 2021 – IREE

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1º de Maio, Dia dos Trabalhadores: de 1886 a 2021

Guilherme Boulos

Guilherme Boulos
Coordenador do MTST



Em primeiro de maio de 1886, operários de Chicago estavam em greve para reduzir a jornada de trabalho industrial de 13 para 8 horas. Era um período histórico de mobilizações do movimento operário. A polícia norte-americana interveio brutalmente e assassinou quatro trabalhadores grevistas. Alguns anos depois, a Internacional consagrou o Primeiro de Maio como Dia dos trabalhadores.

Ao analisar a Revolução Industrial, Marx notou a ironia do desenvolvimento capitalista ter criado as condições para a organização operária. A reunião dos trabalhadores em grandes fábricas e sob as mesmas condições de exploração foi o que permitiu a organização coletiva em sindicatos, as reivindicações comuns e a greve como forma de luta. Ou seja, a industrialização transformou uma massa dispersa de trabalhadores artesanais e camponeses em operários com identidade coletiva.

Todo o desenvolvimento da esquerda mundial partiu dessa base: a classe trabalhadora organizada. Grandes greves, insurreições e mesmo revoluções socialistas ocorreram ao longo do século XX tendo como força motriz os operários e o sindicalismo. No Brasil, o PCB – primeiro grande partido de esquerda – se reivindicava um partido operário; e o PT surge nos anos 1980 a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista. Ainda tínhamos uma indústria de modelo fordista, com grandes plantas fabris, concentrando milhares de trabalhadores.

Divulgação / Arquivo Histórico Nacional

Fonte: Divulgação / Arquivo Histórico Nacional

Esse cenário começa a mudar a partir dos efeitos da revolução microeletrônica e da hegemonia neoliberal sobre as relações de trabalho. As novas tecnologias baseadas na microeletrônica e na robótica permitiram a substituição do trabalho humano pela automação em uma série de setores industriais. A força de trabalho foi migrando gradativamente da indústria ao setor de serviços, que viveu uma hipertrofia, com a maior complexidade das intermediações técnicas, administrativas e financeiras.

Paralelamente, a política econômica neoliberal, inaugurada por Tatcher e Reagan – e que teve o Chile de Pinochet como laboratório – produziu uma profunda desregulamentação do mercado de trabalho, atacando direitos conquistados, ampliando a rotatividade e generalizando formas de emprego precárias e por conta própria. O trabalho sem patrão, mas também sem direitos nem previdência. A precarização cresceu muito no Brasil dos anos 1990, mas só se tornou lei com a reforma trabalhista de Temer em 2017.

O fato é que essas mudanças também tiveram uma consequência direta sobre as possibilidades de organização e luta dos trabalhadores. Que identidade coletiva é possível construir entre trabalhadores que fazem bico, com alta rotatividade? Como é possível lutar por melhores condições de trabalho entre camelôs, expostos mais que tudo à lógica do cada um por si? Muitas das formas de trabalho atuais criam barreiras intransponíveis para a sindicalização e a luta conjunta.

A última década fortaleceu um fenômeno ainda mais novo: a uberização do trabalho. A partir da tecnologia de aplicativos, milhões de trabalhadores ao redor do mundo são expostos a jornadas sem limite, sem qualquer contrato trabalhista e sem nenhuma relação entre si. É a atomização da classe trabalhadora, mediada pelas empresas de tecnologia.

Valendo-se de uma legião de desempregados, a iniciativa funcionou. Mais do que isso, foi apresentada ideologicamente como “empreendedorismo”. O trabalhador que passa o dia em cima de uma moto fazendo entregas ou detrás de um volante transportando passageiros, tirando o básico no fim do mês, foi redefinido como “empreendedor”. Essa nova identidade ludibriou a muitos e tornou mais lustrosa a dureza do cotidiano.

É verdade que o empreendedorismo não se resume a ser maquiagem da superexploração. Para as novas gerações é cada vez mais atraente a ideia do trabalho sem patrão e de definir a própria jornada. Embora essa não seja a regra do que a ideologia neoliberal chama cinicamente de empreendedorismo, é um fenômeno social relevante, com o qual a esquerda – em geral restrita às formas tradicionais de organização sindical – precisa aprender a se conectar.

2021 não é 1886. O mundo do trabalho é outro, mas o movimento sindical pouco se transformou. Há uma massa de trabalhadores deserdados, que, por falta de outra perspectiva, aderiu inclusive à onda mundial da extrema-direita nos últimos anos. A esquerda, se quer voltar a ser a expressão mais legítima da luta dos trabalhadores, precisa decifrar o enigma das formas de organização dos precarizados e do chamado empreendedorismo popular.

As lutas territoriais urbanas na América Latina, os nascentes movimentos de trabalhadores uberizados e as revoltas de massas indignadas sem direção que vimos nos últimos anos dão pistas importantes. Mas o tempo está contra nós. A mensagem da velha esfinge de Tebas segue atual: decifra-me ou te devoro!



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Guilherme Boulos

É professor, diretor do Instituto Democratize e coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo.

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